Ser padrasto

Laura, Isabel, Rodrigo e André

 

Por Rodrigo Simon*, jornalista 

 

Neste domingo, nós também podemos comemorar?

Não precisa ser uma festa de arromba, claro. Nem faz nosso estilo.

É que nós, padrastos, somos um pouco assim mesmo. Chegamos de mansinho, um tanto tímidos. Há até quem tente adotar um estilo mais ousado, um pouco bonachão, fazendo uma certa graça, mas acredite, é tudo encenação. Lá no fundo vive uma boa dose de insegurança e a consciência de que não somos os protagonistas.

Afinal, não daria para ser diferente. É que, progenitores ou não, todos nós sabemos que a figura do padrasto não é das mais populares por aí. “Deus é pai, não é padrasto!”. “Mais vale um pai ruim do que bom padrasto”. Estes são apenas dois dos provérbios mais conhecidos. É bem verdade também que a pobre da madrasta se vê em situação ainda pior, como sabe qualquer um que já tenha lido ou visto Branca de Neve e Cinderela, ou então ouvido em um campo futebol de várzea que o zagueiro “bate mais que madrasta”. Mas em uma sociedade machista como a nossa, tenho cá minhas dúvidas se de alguma maneira não seja ainda um pouco mais tolerável que uma mulher cuide de nosso pai enquanto “na cama da mamãe marmanjo nenhum se aninha”.

Talvez a literatura tenha um tanto de culpa nisso. Para além dos irmãos Grimm, Humbert Humbert, narrador e padrasto da Lolita Dolores, certamente não contribuiu muito para nossa boa imagem. No cinema, a situação não é muito diferente: Stepfather, um clássico da década de 1980, conta a história de um homem que mata sua primeira família e, não satisfeito, volta a se casar com uma viúva – e não fosse pela intervenção da enteada, teria feito tudinho de novo. Até mesmo nas comédias o padrasto se dá mal. Mr. Woodcock conta a história de um rapaz que ao voltar à sua cidade natal descobre que a mãe está namorando o ex-professor de educação física que o fazia passar por poucas e boas na escola. Ironia do destino, o professor é vivido pelo ator, diretor e músico Billy Bob Thornton, que, pelo que dizem as más línguas, se separou de Angelina Jolie por não querer ser “padrasto” do primeiro filho dela. Tudo isso para não citar o que Hamlet pensava de seu tio – e padrasto – Cláudio.

Mas se é verdade que a dramaturgia, o cinema e a literatura não deram qualquer contribuição para que o padrasto fosse indicado ao prêmio de O Homem do Ano, também é verdade que nossa fama já não era das melhores muito tempo antes de Shakespeare pensar em ser ou não ser qualquer coisa.

A origem etimológica da palavra família é o latim famulus, os escravos domésticos na Roma Antiga. Ainda que tenha sido usado por extensão de sentido, para nomear os núcleos sociais a quem esses escravos serviam, o Digesto de Justiniano aponta que “familiam dicimus plures personas quae sunt sub unius potestate”, ou seja, “chamamos família a um conjunto de pessoas que se encontram sujeitas ao poder de um só”. E quem seria o legítimo detentor de poder sobre esposa, filhos e escravos? O padrasto que não haveria de ser, claro.

Na Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo diz que é o homem a cabeça da mulher. Um pouco adiante, na Carta aos Efésios, o mesmo Paulo Apóstolo diz às mulheres para que sejam submissas aos seus maridos. Sim, é verdade que ele não utiliza a palavra pai, mas como “o que Deus uniu, o homem não deve separar”, a conclusão a que chegamos é que marido só há um e, por extensão, pai também. Ou seja, pelos olhos da Igreja, se há um padrasto, alguma coisa está errada. Talvez por isso à noite rezemos o “Pai Nosso”, sobrando nada para José, que seria o “Padrasto Nosso”, ou, no caso, de Jesus. E, convenhamos, ainda que seja hoje o Padroeiro das Famílias, nosso colega São José não faz grande figura no Novo Testamento. O Evangelho segundo São Mateus conta que, ao saber que Maria havia engravidado antes de viverem juntos, o carpinteiro pensou em abandonar a mãe de Jesus, e só depois que um anjo apareceu em sonho para dizer que o filho havia sido gerado pelo Espírito Santo que José achou por bem se aprumar.

Mesmo quando fugimos das instituições religiosas, a presença do pai como organizador é marcante. Em Totem e Tabu, Freud conta a história da primeira comunidade dos homens. Nessa “comunidade primeva”, o pai tem poder absoluto sobre os filhos e as mulheres da comunidade. A situação não acaba bem para esse pai, que é morto e devorado pelos filhos em um banquete. O resultado é que ao se organizarem, deixando para trás a barbárie, os irmãos iniciam um protótipo de sociedade. Mas eles também se sentem culpados, o que vai gerar uma herança que irá produzir a necessidade de restauração da representação desse pai, a restauração do totem. Pois não é que morto o pai se tornou ainda mais forte do que quando estava vivo? Mas justiça seja feita à psicanálise: é preciso lembrar que Lacan veio em nosso auxílio ao utilizar o termo Função Paterna para dizer que pai é um operador simbólico, pouco importando se é realmente biológico ou mesmo do sexo masculino. Segundo o psicanalista francês, nos conflitos psíquicos a incidência paterna se apresenta sob um aspecto triplo: pai simbólico, pai imaginário e pai real, que, no caso, nada tem a ver com o pai de carne e osso. Tudo bem que pouco antes de morrer Lacan teria dito que quem quisesse que fosse lacaniano, pois ele seguiria sempre freudiano, ou seja, permaneceria atrelado ao “Pai” da psicanálise, mas isso já é outra história.

Mas então como competir, como se ajeitar na posição de quem veio para substituir aquela que é a mais forte figura da história da humanidade? Pois não é que, vira pra cá, mexe pra lá, talvez esteja exatamente aí a beleza da coisa?

Tornar-se padrasto nos permite ver a possibilidade de ser um a mais sem que para isso seja necessário existir um a menos. Nos mostra que nos afetos é possível ganhar sem que alguém perca. Ser padrasto é perceber a condição humana estrutural, que nunca seremos tudo para o outro, que há uma grande diferença entre ser não-todo (o que todos somos) e ser incompleto (que é o que nos aterroriza). Ser padrasto é talvez mostrar a possibilidade de, como diz Álvaro de Campos, não ser campeão em tudo, não ser príncipe ou semideus, não ser ideal, ser apenas gente. Ainda que eu tenha que confessar que não acharia nada mal se fôssemos, como os franceses, chamados de beau-père (“belo-pai”). J

Bom domingo dos pais a todos.

*Rodrigo Simon é jornalista, com passagem pelas redações da CBN, Bandnews e TV Cultura. Mestre em Letras pela USP, é doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp. 

 

 

 

 

 

 

 


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