Carta de Elis Regina para o filho: um tocante presente de Natal

 

Foto: Arquivo / Agência O Globo

Por Ricardo Kotscho, jornalista 

Nesta véspera do Natal de 2017, nada me tocou tanto como a carta que Elis Regina escreveu para o filho João Marcello Bôscoli, dias antes de ele completar um ano.

Está no livro Cartas Brasileiras (Correspondências históricas, políticas, célebres, hilárias e inesquecíveis que marcaram o país), uma obra prima de produção editorial da Companhia das Letras, de Luiz Schwarcz, organizado por Sérgio Rodrigues.

Ganhei o livro da Mara, minha mulher há 48 Natais, e comecei a ler ontem mesmo.

Na página 41, está esta carta maravilhosa, a mais bela declaração de amor que já li. Nada pode resumir melhor o espírito de Natal.

Elis Regina foi não só a maior cantora da história da nossa música popular, mas uma mulher de garra e paixão sem limites, com a emoção sempre à flor da pele, que não conseguia esconder o que sentia a cada momento da sua breve vida.

Dias antes de João Marcello completar um ano, em 1971, Elis escreveu e guardou a carta num cofre para que ele só a lesse quando fizesse 18 anos.

A carta foi encontrada pelo jornalista Julio Maria, e publicada na sua biografia da cantora, Nada será como antes, em 2015. Elis morreu de overdose em 1982. Não viveu para saber o que João Marcello sentiu ao ler o que a mãe lhe escreveu.

Transcrevo abaixo a carta, meu presente de Natal aos leitores do Balaio:

“Rio, 14 de junho de 1971

João

Queria era te dizer que te amo, que preciso de você. Quero você mais do que tudo que já quis.

Queria te dizer também que não sei como achava graça nas coisas antes de você surgir, porque eu sinto uma falta incrível de você.

Quando não está por perto, os troços perdem o sentido e a razão.

Outra coisa que você precisa saber é que você construiu pacas.

Você me pegou um bagaço daqueles, me ajeitou, me maneirou, me devolveu a risada do ginásio, criou uma fonte de investimento em minhas áreas menos desenvolvidas.

Negócio maravilhoso a sua mão no meu cabelo. A única mão que não me mete medo.

Coisa linda seus olhos me olhando sério, me levando a sério, me descobrindo até para mim.

Incrível sua boca sorrindo e falando coisas poucas, mas o suficiente para nos entendermos e sabermos que estamos em boas mãos. Quanto eu te devo!

Você chegou e arrasou, acabou com o baile.

Se porventura eu lhe falhar, não estiver à sua altura, se for menos do que você acha que merecia, não me imagine mais do que eu sou. Tenho tantos problemas como você. Não me culpe.

Antes, procure me compreender. Sou resultado do que a vida fez comigo, inconsciente e inconsequentemente.

Saiba, porém, que você foi o único ser com o qual eu não fui inconsciente nem inconsequente.

Pensei, medi tudo, apesar de que não sou perfeita. Bem que gostaria de ter sido, mas nunca se consegue, mesmo tentando o máximo.

O bacana é que sobra a todos uma vida para consertar os erros cometidos nesse pouco tempo e, no que depender de mim, creia, me jogo de cabeça e não te deixo em falta.

Só quero que a gente sempre fale de frente, sem camuflagem, olho no olho.

Esteja certo, eu nunca vou mentir, nem uma mentira piedosa.

O que tiver que ser, vai ser. Nem que seja ferro em brasa, mas vai.

Porque o que há de mais bonito é a confiança nos companheiros de briga. Fora dela, não há salvação.

É o mínimo que posso fazer de verdade verdadeira por você, que me deu uma concepção nova de vida.

Só me falta dizer muito obrigada por você ser tudo o que você é, por você ter nascido e por você ter me dado a felicidade de dividir tão intimamente o meu corpo.

Sejamos felizes, é o que eu quero.

E é o que há de ser, meu filho. Sou tua sempre.

Mamãe”.

Texto publicado no site do jornalista Ricardo Kotscho. 

http://www.balaiodokotscho.com.br


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