Dificuldades alimentares no contexto da relação pais-bebê

Por Mariângela Mendes de Almeida*
Alimentação como primeira janela clínica da relação pais-bebê

Problemas alimentares durante o desenvolvimento inicial apresentam-se constantemente como uma fonte de preocupação para pais no contexto do acompanhamento pediátrico. De forma transitória ou persistente, e mesmo sem um comprometimento de ordem orgânica primária, podem apresentar-se, no bebê, como:

. Redução ou pouco ganho de peso

. Recusa a aceitar alimentos

. Resistência a mudanças no tipo de alimentação

. Pouco apetite

. Dificuldades de engolir alimentos

. Vômitos constantes

Para os pais, tais dificuldades são mobilizadoras de intensa angústia, medos, mais, ou menos, justificáveis, ou fantasias, quase sempre permeadas de culpa, de comprometimento do crescimento e desenvolvimento saudável, e em casos mais extremos, até de intensa fragilidade e risco de vida do bebê.
Sabemos o quanto é comum ocorrerem oscilações e dificuldades de adaptação ao longo do estabelecimento de ritmos próprios de alimentação, assim como ocorre com todos os ciclos de regulação de cada bebê no contexto da relação com seus cuidadores significativos (além da nutrição, também sono, contato, atividade, humor). Sabemos também, o quanto através da área da alimentação, primeira janela clínica no desenvolvimento das relações pais-bebê (Stern, 1997), podemos entrever tanto o desenvolvimento das capacidades do bebê na relação com seus cuidadores, quanto os possíveis sutis desencontros, dificuldades ou obstáculos que se apresentam nas trocas interativas. O que contribui para que esses pequenos desencontros possam ser superáveis, transitórios, ou se tornem parte de uma estrutura potencial de risco, de caráter menos passageiro, no relacionamento pais-bebê?
Dificuldades alimentares: transição ou sinal de alerta?
Ao longo de um trabalho de 20 anos com pais e bebês, destaco como interesse especial os aspectos de vulnerabilidade/ risco e fatores de proteção/ resiliência frente à possibilidade de superação ou intensificação de dificuldades no desenvolvimento da criança no contexto relacional. No caso dos problemas alimentares, o que dificulta ou facilita a superação de dificuldades que poderiam ser inicialmente transitórias? Os aspectos da prática clínica e investigativa com problemas alimentares iniciais (Mendes de Almeida, 1993), em consonância com aspectos teóricos levantados na literatura, apontam para as seguintes considerações:
. Observam-se correspondência entre padrões de relacionamento pais-bebês e problemas de alimentação infantil, com fatores facilitadores ou complicadores na superação das dificuldades alimentares.
. As relações alimentares entre os bebês e seus pais refletem modalidades de continência, “digestão” e processamento de conteúdos emocionais, experienciados no contexto do relacionamento pais-criança. As dificuldades infantis de concretamente metabolizar e aceitar o alimento são observadas como ocorrendo num contexto familiar de dificuldades temporárias, (ou às vezes mais significativas), de “digerir” mentalmente experiências emocionais, e dificuldades de continência expressas na relação pais-bebê.
. As experiências alimentares constituem, ao mesmo tempo, matrizes e campo para a expressão de modalidades de trocas relacionais vivenciadas pelo bebê e seus pais, sendo assim base importante para o contínuo desenvolvimento de suas interações.
.Ocorrem correspondências entre sintomas apresentados pelo bebê e modalidades de relacionamento pais-criança.
(…)
 

Conclusão:
É freqüente que oscilações no apetite infantil, necessidades de adaptação a mudanças alimentares, ou menor disponibilidade para a alimentação em momentos transitórios de fragilidade do bebê, em contexto de vulnerabilidade parental ou relacional, evoquem intensas ansiedades dos cuidadores, criando um círculo vicioso, em que tal ansiedade interfere na experiência de alimentação, que é então mais consistentemente recusada pelo bebê, o que intensifica ainda mais o desespero dos pais. O que seria transitório pode, então, tender a se cristalizar, não só em transtornos alimentares, mas em transtornos que passam a permear a dimensão mais ampla do desenvolvimento e comprometer a subjetividade psíquica do bebê.
Neste contexto, a detecção de riscos e a intervenção cada vez mais precoce junto às dificuldades alimentares infantis tem se mostrado de significativo benefício para a possibilidade de desenvolvimento dos recursos de proteção e alternativas para a saúde do vínculo pais- bebê. Fatores de resiliência são então fortalecidos, promovendo tentativas de equilíbrio junto aos fatores de risco, e contribuindo de maneira fundante para o desenvolvimento da saúde da criança e da família.
Mariângela Mendes de Almeida* é psicóloga com Mestrado pela Tavistock Clinic e University of East London (Inglaterra); Supervisora e Docente do Curso de Especialização em Psicologia da Infância e participante do Setor de Saúde Mental do Depto. de Pediatria da UNIFESP, Docente de Introdução a Intervenção Precoce no Instituto Sedes Sapientiae, Membro Filiado ao Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Participou como especialista convidada do Papo de Mãe sobre Estímulos e desenvolvimento dos bebês, exibido em 25.09.2011. Contato: mamendesa@hotmail.com.
 
 

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