DEPRESSÃO PÓS-PARTO – Sabemos os riscos, mas podemos preveni-la?

Dr. Júlio Elito Jr
 
 

• Nos últimos vinte anos, houve um maior reconhecimento de que a gravidez em algumas mulheres pode ser complicada por problemas emocionais, particularmente depressão, causando um impacto significativo sobre a mãe e a criança. Com a identificação de fatores de risco para a depressão pós-parto e um aumento do conhecimento sobre a vulnerabilidade biológica para os transtornos de humor no período puerperal, um número crescente de estudos tem explorado meios de prevenir a depressão pós-parto, utilizando estratégias psicossociais, psicofarmacológicas e hormonais.

• Estima-se que de 25 a 35% das mulheres apresentam sintomas depressivos na gravidez e que até 20% das mulheres podem preencher os critérios para depressão. Encontrou-se que os índices de sintomas depressivos são mais altos durante o terceiro trimestre do que seis meses após o parto. Durante a gravidez, no entanto, os pesquisadores encontraram um pico na depressão no primeiro trimestre, uma melhoria dos sintomas durante o segundo semestre e um aumento do índice de depressão durante o terceiro trimestre.

• Oito de cada 10 mulheres podem apresentar a melancolia da maternidade (postpartum blues), um transtorno transitório do humor tipicamente marcado por labilidade do humor, momentos de choro, irritabilidade e transtorno do sono, que perdura cerca de duas semanas após o parto. Em algumas mulheres, os sintomas depressivos não se resolvem e persistem, levando à depressão pós-parto. Estudos epidemiológicos identificaram uma variação da prevalência de depressão pós-parto (DPP) entre 10 e 20%. Aproximadamente um em cada 1.000 partos é seguido de um episódio psicótico.

• A DPP tem sido vinculada a rupturas no funcionamento da díade mãe-bebê, tais como na atenção, na comunicação vocal e visual, menor freqüência de interações que envolvem tocar e sorrir, em comparação com díades que incluem mães não deprimidas. Mães deprimidas demonstraram também comportamentos mais invasivos e irritáveis em relação a seus bebês e responderam de forma menos sensível e contingente e mais negativa a seus bebês. Bebês e crianças até dois anos podem ser particularmente vulneráveis aos efeitos negativos de DPP. As pesquisas demonstraram que os filhos de mulheres com DPP mostram altos índices de insegurança vincular, alguns atrasos no desenvolvimento cognitivo e emocional e mais disforia.

• Para algumas mulheres, especialmente mães primíparas, a transição para a maternidade pode ser difícil e combinada com baixa auto-estima, particularmente se a gravidez não tiver sido planejada. Mulheres socialmente isoladas da família, dos amigos ou de seus parceiros têm maior probabilidade de experimentar sintomas depressivos no período pós-parto. Isso pode ser especialmente verdadeiro para mulheres que imigraram recentemente e que vivenciam barreiras geográficas e lingüísticas. Outros eventos de vida negativos, tais como a perda de um emprego ou a morte de um familiar próximo também são preditores de DPP.

• A DPP pode ocorrer mesmo em mulheres sem histórico psiquiátrico familiar conhecido ou qualquer um dos fatores de risco. A literatura revela que o início da depressão pode ocorrer não somente poucas semanas após o parto, mas até sete meses após este. Portanto, o monitoramento cuidadoso do humor no primeiro ano após o parto é crucial, especialmente em mulheres com histórico de DPP.

• Algumas poucas perguntas simples durante as visitas rotineiras do atendimento primário poderiam ser eficazes para identificar mulheres em risco de ter DPP. Essas perguntas devem inquirir sobre o histórico psiquiátrico pessoal e familiar, em particular sobre transtornos de humor e alcoolismo e, sobretudo, estabelecer o estado atual de espírito e de humor das mulheres.

• A descontinuação abrupta do regime de tratamento com psicotrópicos durante a gravidez deve ser evitada se possível,a fim de impedir uma piora da saúde psicológica. Um relato de observações em um grupo de mulheres grávidas encontrou que os sintomas depressivos pioraram significativamente após a descontinuação abrupta de antidepressivos, sendo que as mulheres haviam tomado antidepressivos em um espaço de tempo tão curto como várias semanas.

• Algumas intervenções revelaram-se promissoras para a redução da ocorrência de DPP entre mulheres em risco, mas nenhuma estratégia isolada evitou esta síndrome em todas essas mulheres. Esses estudos necessitam de replicação, mas atualmente todos os resultados preliminares devem ser interpretados com cautela até que novos estudos controlados estejam disponíveis.

Fonte: Trechos extraídos de artigo publicado na Revista Brasileira Psiquiatria, 2005;27(Supl II):S56-64. “Postpartum depression: we know the risks, can it be prevented?” Autores: Dawn Zinga, Shauna Dae Phillips, Leslie Born.

 Dica: Papo de Mãe  Depressão pós-parto:

 


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