DEPRESSÃO PÓS-PARTO: relato e dica de leitura

Oi gente!
Continuando o nosso papo sobre depressão pós-parto, hoje trouxemos um trecho do livro “Diário de uma mulher do purgatório ao paraíso”, escrito pela psicóloga Malu Favarato*, que esteve presente conosco no programa deste último domingo.
O interessante neste livro é que além de abordar o tema depressão pós-parto sob um ponto de vista clínico, a autora também relata sua experiência pessoal com a DPP.
Confiram a seguir o relato emocionante da angústia vivida pela autora no auge da sua depressão. Quem já passou ou está passando por isto vai se identificar bastante…
***
Malu Favarato
“Fiquei ali ao lado daquele corpinho frágil, durante horas, chorando. Ela era tão linda, perfeita, cheia de vida, e eu era só tristeza e dor. Queria passar algum sentimento bom e feliz para minha filha, mas de dentro de mim só vinha desespero. Sussurrei em seu ouvido a minha mais sincera confissão:
‘Querida, amada e desejada filha, por favor, perdoe a mamãe. Te amo mais que tudo neste mundo. Te amo com toda a força de meu amor. Queria demais poder te demonstrar isso. Esperei tanto para tê-la em meus braços e amá-la com essa vontade inefável, mas a doença não deixa.
Filha, a mamãe está doente e é por isso, e só por isso, que estou tão triste assim. Me sinto fraca, impotente, com medo e sem esperança. Estou sem luz e sem brilho e queria tanto brilhar com você que resplandece em minha vida.
Ah! filhinha, me desculpe por te falar dessas coisas. Me perdoe. Sinto-me tão culpada por macular teus ouvidos puros de criança com estas palavras tão duras e áridas. Culpada por te mostrar este mundo tão sem esperança e sem graça. Culpada porque os primeiros sentimentos que tenho para te apresentar serem os mais sem fé e alegria do ser humano.
Ah! meu pequeno bebê, sua mamãe não é assim. O mundo não é assim. Vou me tratar e conseguiremos ser plenamente felizes como sempre sonhei. Por hora peço seu perdão e sua confiança de que venceremos essa dor. Nada de mau vai te atingir. Não deixarei. Você é minha e meu amor por você há de nos proteger.
Helena, agora falo à tua alma, para que registre no mais profundo do teu ser, que esta seja a tua crença mais real, forte e duradoura, ainda que em alguns momentos somente as trevas possam nos rodear: você é e sempre será a luz da minha vida. Você é e sempre será minha filha querida, amada e desejada.’
Os dias foram passando e eu me sentindo pior e pior. Minha memória já não conseguia reter mais nada. Não tinha ânimo para sair da cama, mas quando o fazia era porque as obrigações com a Helena assim determinavam.
Andar era para mim um peso. Arrastava-me. Parecia que quilos de chumbo haviam sido amarrados em meus pés e puxavam-me para baixo. Sentia-me caindo o tempo todo e era tão real que tinha medo de estar com a Helena no colo e cair mesmo.
Procurava cumprir a rotina que a Dra. Cristina havia estabelecido, mas até mesmo fazer as mamadeiras era algo difícil. Tinha de colocar três medidas de leite na água, mas quase sempre tinha de refazer as mamadeiras mais de uma vez, pois começava a contar um, dois… me confundia… não sabia se já colocara duas ou três. Por medo de errar e por precaução jogava tudo fora e começava de novo.
À noite, quando terminava de ferver as mamadeiras e prepará-las para a madrugada, quando a Helena já estava de banho tomado e eu já havia jogado uma água no corpo, dava-me por satisfeita. Mais um dia havia sido superado e nenhum desastre ocorrera. E então eu chorava…”
(Trecho extraído do livro “Diário de uma mulher do purgatório ao paraíso”, de Malu Favarato)
*Malu Favarato é mãe, psicóloga, escritora e palestrante. Participou como especialista convidada do Papo de Mãe sobre Depressão pós-parto exibido em 20.11.2011. Contato: malufavarato.psi@terra.com.br

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