Trabalho X Maternidade – O dilema nosso de cada dia

Por Carolina Ambrogini*, ginecologista e obstetra

 

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Depois de decidir ter ou não ter filhos, a mulher dos tempos atuais que resolve ter, cai em outro dilema: trabalhar ou não trabalhar?

Mesmo aquela mais ferrenha feminista e independente, sente uma dor no coração ao deixar seu bebê no berçário pela primeira vez. E esta dor não cessa assim com qualquer analgésico não… Do peito, ela vai para o estômago e ali permanece por um bom tempo, embrulhando tudo, deixando um gosto amargo na boca. Gosto de culpa, dó, arrependimento, alívio, obrigação, realização e de todas as contradições possíveis de existir numa pessoa.

Queimaram os sutiãs e nos libertaram da dependência masculina, mas ninguém nos ensinou ainda o que fazer com aquele olhar de filho pedindo pra você ficar, com a febre que você pessoalmente quer cuidar e com chefes intolerantes com a nossa condição de mães.

Tá, então cansada desta vida, você resolve que não aguenta mais e decide se dar ao luxo – sim, luxo, pois para muitas, isto não é uma opção – de se ocupar só com os filhos e a família. Joga anos de estudo para o alto e enfim se sente em paz. Será???

Num primeiro momento, acredito ser um sentimento ótimo, o de sentir que pode acompanhar todas as fases da criança, sem se preocupar com horários, relatórios, metas, etc. Mas logo aquele gosto amargo volta, vem a culpa de não trabalhar, de depender, de se sentir menos mulher-moderna…Vem a vontade de se sentir útil, de produzir, de conquistar o seu próprio dinheiro e todo aquele velho dilema aparece outra vez.

Não adianta, desde aquela bendita (maldita?) fogueira de sutiãs nos sentiremos para sempre como uma corda num cabo de guerra, numa hora a maternidade puxa de um lado, logo depois, o trabalho vem e puxa de outro. E assim vamos levando uma vida louca, sempre divididas, lidando com estas duas poderosas forças, em meio às nossas frustrações e culpas. Enquanto isto, vamos nos adaptando também, tentamos formas alternativas de trabalho para ficar mais em casa, jornadas de meio-período ou conversamos com o chefe para ser mais maleável, com o marido para ajudar em casa, com o papa para rezar pela nossa sanidade mental…

Saiba que estamos todas juntas neste barco. Levamos um tempão nos preparando para sermos profissionais competentes, lutamos e vencemos preconceitos, mas a maternidade chega com o biológico, com o instinto que todas nós temos de querer cuidar da cria e tudo se complica. Estamos juntas para buscar por uma sociedade onde seja possível a conciliação, sem que tenhamos que abrir mão destas duas coisas fantásticas da vida: a maternidade e o trabalho.

Independente das suas escolhas, tente, quando arrumar um tempo, olhar para si própria. Quais são os seus sonhos, seus projetos, sua essência? Sim, se dedicar aos filhos é louvável, mas eles crescem. Sim, trabalhar no que você gosta é maravilhoso, mas você precisa ser assim tão perfeita? Muitas vezes, tentando dar conta de tudo e agradar a todos, nos esquecemos do mais importante, do que realmente queremos. Você sabe?

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*Dra. Carolina Ambrogini é ginecologista, obstetra, sexóloga e mãe de 2 filhos. Coordena o Projeto Afrodite, da Universidade Federal de São Paulo e já participou como especialista convidada de vários programas Papo de Mãe. 

Texto publicado pela Revista Crescer e reprodução autorizada pela autora. 

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