Papo de Mãe

É possível amar mais um filho que outro? 

Para quem assistiu ao filme “Extraordinário” ou leu o livro homônimo, é absolutamente nítido o tanto que um filho pode demandar de seus pais.

Roberta Manreza Publicado em 27/02/2018, às 00h00

Imagem É possível amar mais um filho que outro? 
27 de fevereiro de 2018


Por Camila Colla Duarte Garcia, Psicoterapeuta infantil

É provável que 100% das mães de mais de um filho já tenham sido confrontadas com perguntas sobre qual é o seu filho preferido, de qual filho a mãe gosta mais e etc. 

Verdade ou não?

Nada disso foge da normalidade, uma vez que as mães podem ter afinidades diferentes com os filhos, assim como se tem com as pessoas em geral. 

Às vezes, a mãe pode estar dando mais atenção a um filho que esteja doente ou que necessite de ajuda com alguma lição de casa, com estudos para uma prova, por exemplo. 

Mas, pergunte a ela se isso significa que ela gosta mais desse filho e a resposta será um sonoro NÃO.

No entanto, algumas situações não são assim tão cotidianas e podem exigir muito mais da mãe e do pai de uma criança.

Para quem assistiu ao filme “Extraordinário” ou leu o livro homônimo, é absolutamente nítido o tanto que um filho pode demandar de seus pais.

De maneira resumida, Auggie é um menino de 11 anos que nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma deficiência facial bastante grave. Ele passou por diversas complicações médicas e 27 cirurgias. 

Por isso, nunca havia frequentado uma escola, foi educado em casa por sua mãe até então. O seu desafio agora que vai entrar no 5º ano da escola é superar essa estranheza que imediatamente causa nas pessoas e mostrar a elas que ele é um menino comum.

Outra informação a respeito de Auggie é que ele tem uma irmã mais velha, Olivia – a Via – de 15 anos. Via é uma adolescente que também está enfrentando uma nova escola, perdeu sua melhor amiga, está descobrindo novos gostos e novas pessoas. 

Mas, em suas próprias palavras: “August é o Sol. Eu, a mamãe e o papai giramos em volta dele.”. Ou seja, seu irmão mais novo é o Astro Rei. E Via? Qual o seu lugar nessa família?

Longe de mim dar algum spoiler do filme, mas fiquei profundamente tocada pela trajetória da personagem Via e imaginei quantas vezes ela não se perguntou se sua mãe gostava mais do Auggie do que dela e se o seu irmão era o preferido da sua mãe.

De acordo com a constelação familiar dos Pullmann, Auggie era visto como o elo mais frágil e, portanto, merecedor de toda atenção de seus pais.

Via aceitava e compreendia essa condição, até de maneira passiva, pois entendia que ele precisava mesmo ser o Astro Rei da família. 

Mais do que isso: ela o amava muito, o defendia e o protegia sempre. Estava claro para ela que seus pais haviam estabelecido relações diferentes entre Auggie e ela e isso  não foi um problema até que ela percebeu que as relações não eram apenas diferentes, mas de certa forma, injustas.

O filme se desenrola de maneira emocionante, delicada e engraçada ao mesmo tempo. Você rapidamente se solidariza por Auggie, se apaixona por Via e se encanta pelos pais deles, mas a minha intenção aqui não é fazer resenha do filme, mas problematizar as relações familiares que aparecem.

Quando os pais não conseguem administrar as vontades e os anseios entre os filhos e deixar claro por que eles têm espaços diferentes em casa, o equilíbrio doméstico fica ameaçado. Utilizar-se de dois pesos e duas medidas, nestes casos, pode ser prejudicial para as duas crianças.

A criança que recebeu todas as atenções e cuidados ao longo da vida pode sentir-se sufocada, incapaz, pode tornar-se mimada e infantilizada. 

A outra criança, por sua vez, pode ter a sua autoestima abalada, sentir-se permanentemente insegura e, de certa forma, abandonada.

Como é então que podemos reestabelecer o equilíbrio familiar?

O primeiro passo é reconhecer, por parte de todos os membros da família, que há um desequilíbrio em jogo. A família precisa estar motivada a resolver suas questões, de maneira conjunta, agindo positivamente, ou seja com empatia e respeito aos outros.

Conversem, chorem juntos, escutem os outros, abracem-se, procurem entender as necessidades do outro, ofereça escolhas e alternativas, ao invés de se culparem e se agredirem. 

Tenham como meta conjunta o equilíbrio familiar, que, quando atingido propicia equilíbrio e compreensão emocional de todos. 

No mundo real, é impossível que todas as necessidades de todos os membros de uma família sejam 100% satisfeitas, mas é possível ponderar e ajustar as possibilidades reais e mais importantes.

*Camila Colla Duarte Garcia é Psicoterapeuta infantil formada pela PUC-SP.  




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