Brinquedo não tem gênero

 

Por Camila Queres*, educadora infantil

 

Antes mesmo de ter filhos, ministrei um curso sobre brinquedos e brincadeiras para pais e mães. Em um dos slides, fotos de meninos brincando com panelinhas e dando banho em bonecas afetaram de formas diferentes homens e mulheres da plateia. Algumas mães relataram que os filhos gostavam de brincar de comidinha, mexer as panelas, colocar avental e chapéu de mestre cuca. Os pais reviraram os olhos. A brincadeira com bonecas pareceu incomodar mais ao público em geral. Ver o filho brincando de boneca parecia ser algo menos aceito, poderia gerar suspeitas, ainda que infundadas, com as quais os pais não gostariam de lidar.

 

Perguntei aos pais da plateia se eles participavam da rotina dos filhos: banho, alimentação, troca de fraldas etc. Todos, sem exceção, disseram que sim. Por que, então, as imagens de meninos, realizando tarefas tão comuns ao universo do homem moderno geraram desconforto? Silêncio absoluto. Preconceito, como sempre, infundado. Pais trocam fralda, banham os filhos, oferecem papinha, colocam para dormir, mas não podem simular as responsabilidades da paternidade com uma boneca. Incoerente. Na categoria dos “brinquedos de menina”, enquadram-se ainda as vassourinhas, carrinhos de supermercado e ferros de passar. Brinquedos normalmente encontrados na cor rosa, licenciados por personagens de desenho animado, provavelmente princesas.

 

Ouvi, certa vez, de uma educadora que as meninas eram naturalmente mais afetivas e os meninos naturalmente mais racionais. Há divergências sobre o quanto fatores biológicos interferem nessa “predisposição” ou o quanto os brinquedos e brincadeiras ajudam a formar meninas emotivas e meninos racionais. Kits de mágica, blocos de montar, jogos de tabuleiro são brinquedos comumente associados ao universo masculino e estimulam o olhar curioso, a análise de dados, a tomada de decisão. A oferta de brinquedos a meninos e meninas não seria também fator de influência na formação de caráter e, até mesmo, estímulo às escolhas profissionais futuras? Vejamos a quantidade de meninas que sonha ser engenheira ou cientista. Brinquedos e brincadeiras são para todos, uma pena que a gente insista em inibir a curiosidade dos pequenos.

 

O faz de conta estimula habilidades socioemocionais, cognitivas e linguísticas. A possibilidade de representar situações reais, cotidianas, ajuda nossos pequenos a compreender o mundo e suas convenções sociais. O faz de conta prepara as crianças para o futuro. A menina que brinca de carrinho, que joga futebol, amplia sua noção espacial e se tornará melhor motorista. O menino que brinca de boneca, que cozinha nas panelinhas, exercita habilidades socioemocionais, amplia sua autonomia e se tornará melhor companheiro. O brincar livre é garantia de aprendizagem, o resto é bobagem.

 

*Camila Queres –  Idealizadora do berçário escola Toddler Desenvolvimento Infantil , a educadora infantil Camila Queres trabalha há mais de 15 anos na área de educação. É formada em Letras pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e tem pós-graduação em Gestão e Educação. Entre os grandes colégios que atuou estão a Escola Britânica do Rio de Janeiro e a Chapel School, em São Paulo. Hoje, além de comandar o berçário escola Toddler Desenvolvimento Infantil, faz a gestão do berçário corporativo da Unilever. Também é mãe de Bento (2 anos) e de Joaquim (1 ano).

 


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