Transferir um único embrião pode ser melhor que dois

Por Dr. Arnaldo Schizzi Cambiaghi* e Dr. Rogério Leão**

 

Novos estudos mostram que transferir um único embrião pode gerar mais resultados positivos que dois

 

Novo exame imunológico na reprodução assistida pode melhorar as chances de sucesso nos tratamentos, diminuir as chances de abortos, evitar a restrição de crescimento do bebê durante a gestação e até a pré-eclâmpsia. Esse exame demonstra que, para alguns casos, transferir um único embrião para o útero pode ser melhor do que dois. Menos é mais.

A pior frustração para aqueles que se submetem a um tratamento de fertilização assistida é quando o procedimento não dá certo. Isso porque muitos passam por uma verdadeira via sacra. No início havia um otimismo, e até o medo de uma gestação múltipla como consequência dos tratamentos, mas, de repente o receio passa a ser algo de menor importância. E ele é trocado pela ousadia de acreditar que, quanto maior o número de embriões transferidos para o útero, maior será a chance de um resultado positivo.

Já não importa mais o risco: 1, 2, 3 e até mais. Isto passa a não ter mais relevância. O que importa é estar grávida, seja lá de quantos bebês for. Aí pode estar o engano: acreditar que quanto maior o número de embriões transferidos, maior será a chance de engravidar. “Agora, com esse novo exame, o conceito de quanto mais embriões transferidos, maior chance de engravidar, poderá se inverter. Em algumas situações específicas, quando houver mais do que um embrião dentro do útero, poderá ser iniciada uma reação imunológica de rejeição”, explica o médico Arnaldo Cambiaghi, diretor do Centro de Reprodução Humana do IPGO.

KIR e HLA-C

Este novo exame de sangue, que tem o nome de KIR – HLA-C (KIR = Killer Immunoglobulin-like Receptors e HLA-C = Human Leucocyte Antigen – Antígenos Leucocitários Humanos), pode ajudar a melhorar os resultados nos tratamentos de fertilização assistida.  Ao definir que a transferência de um único embrião para o útero oferece melhores chances de um resultado positivo e  de uma gravidez com menos riscos  do que quando transferimos dois embriões, por exemplo.

Isso se baseia no fato de que todas as mulheres têm, no útero, células imunológicas (chamadas NK) com receptores capazes de reconhecer o embrião quando este chega ao útero materno. Esses receptores, KIR, se dividem em três grandes grupos genéticos (KIR AA, KIR AB e KIR BB) e têm função inibitória ou estimulatória sobre as células NK e importância fundamental na implantação dos embriões, na formação da placenta e, consequentemente, no próprio desenvolvimento da gestação.

“No passado, acreditava-se que todas as células NK (natural killer = células assassinas), tinham capacidade extremamente citotóxica, ou seja, de matar células estranhas ao organismo, como, por exemplo, as tumorais ou infectadas por vírus. Nos últimos anos, observou-se que existe outro tipo de célula NK no útero com outra função: liberar substâncias imunomoduladoras que estimulam a invasão das células trofoblásticas (do embrião) no endométrio de forma adequada, sendo importante para garantir a implantação e formação adequada da placenta”, esclarece Cambiaghi.

A ausência das células NK pode causar falhas de implantação e, por uma formação deficiente da placenta, abortos, restrição de crescimento do bebê e pré-eclâmpsia. A ação dessas células, tão importantes para uma gestação normal, depende de uma perfeita interação imunológica entre uma molécula da superfície das células do embrião (chamada HLA-C) e os receptores KIR das células NK uterinas.

Todo ser humano dispõe de antígenos nas células denominados HLA que distinguem os antígenos do próprio organismo dos estranhos. As células HLA representam a “marca registrada” de cada indivíduo, a “impressão digital” única, que pode ter uma similaridade maior ou menor com duas pessoas.

O antígeno HLA é uma denominação genética que, nos casos de transplantes de órgãos, tem o objetivo de avaliar o doador ideal para determinado paciente. Os antígenos são divididos em tipos: classe I (A, B e C), classe II (DR, DP, DQ) e outras. Os antígenos HLA estão presentes em todas as células do corpo humano e coordenam a resposta imunológica do nosso organismo não só nos transplantes, mas também em diversas doenças e reações a medicamentos, estimulando a formação de células de defesa, os leucócitos. O antígeno do embrião é o HLA-C.

“Como o embrião é composto de 50% de material genético paterno e 50% de material genético materno, ele tem as moléculas HLA-C materna e paterna. As células NK reconhecem o HLA-C estranho ao seu organismo, ou seja, o HLA de origem paterna. Entretanto, quando a célula NK reconhece este HLA compatível, ela não induz à rejeição, como nos transplantes, mas libera citocinas importantes para gestação”, explica o ginecologista Rogério Leão, membro da equipe médica do IPGO.

O HLA-C do embrião pode ser de dois tipos: C1 e C2. A molécula C1 interfere pouco na atividade da célula NK, então pouco afeta a gestação. Já a C2 tem uma ação muito maior sobre os receptores KIR, sendo, então, mais importante para a gestação. Entretanto, sua ação vai depender do tipo de receptor KIR. Este é determinado por um grupo de genes (haplotipo) que pode ser definido como grupo A, quando gera receptores somente com atividade de inibição; ou grupo B, quando gera algum receptor com atividade estimulatória. Assim, a mãe pode ser AA, AB ou BB (pois tem um haplotipo herdado do pai e um da mãe).

 

Novos estudos

Cambiaghi acrescenta: “Novos estudos, realizados na Espanha pela equipe liderada pela médica Diana Alecsandru, imunologista da clínica IVI Madri, revelaram, entre outras coisas, que a união dos receptores KIR AA com antígeno HLA-C2 paterno é uma combinação de risco para o ser humano. Isso porque o HLA-C2 possui uma forte ação sobre os receptores KIR AA, que têm função inibitória sobre as células NK protetoras que se tornam inativas”.

Isso, portanto, dificulta a implantação e formação da placenta de forma adequada, levando às complicações já descritas. Quando dois embriões são transferidos, a situação se agrava, pois há estímulo HLA-C2 paterno de mais de um embrião, bloqueando, no caso de KIR AA, ainda mais essa ação protetora.

Para evitar essas complicações, pode-se avaliar o KIR da mulher e o HLA-C paterno do marido, por meio de exames de sangue. No exame do KIR, avalia-se se a mulher é KIR AA, AB ou BB. No caso do HLA, considerando que herdamos um HLA-C do pai e um da mãe, o marido poderá ser C1C1, C1C2 ou C2C2. Se for C1C1, o embrião gerado terá sempre HLA paterno C1. Se C2C2, sempre o embrião terá C2. E se o marido for C1C2, os embriões formados têm 50% de chances de terem HLA paterno C1 e 50% de chances de terem C2.

Quando a mulher é AB ou BB, não há risco, podendo-se transferir quantos embriões forem indicados. O mesmo ocorre quando o homem é C1C1. Já nos casos da mulher KIR AA e o marido C2C2, há um risco aumentado de complicações se dois embriões forem transferidos, sendo indicado transferir somente um por vez”, explica Leão. E complementa: “No caso da mulher KIR AA com marido C1C2, como há uma chance de 50% de cada embrião ter C2 paterno, aconselha-se também transferir somente um embrião”.

 

*Arnaldo Schizzi Cambiaghi é diretor do Centro de reprodução humana do IPGO, ginecologista-obstetra especialista em medicina reprodutiva. Membro-titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Laparoscópica, da European Society of Human Reproductive Medicine. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de São Paulo e pós-graduado pela AAGL, Illinois, EUA em Advance Laparoscopic Surgery. Também é autor de diversos livros na área médica como Fertilidade Natural, Grávida Feliz, Obstetra Feliz, Fertilização um ato de amor, e Os Tratamentos de Fertilização e As Religiões, Fertilidade e Alimentação, todos pela Editora LaVida Press e Manual da Gestante, pela Editora Madras. Criou também os sites: www.ipgo.com.br; www.fertilidadedohomem.com.br; www.fertilidadenatural.com.br, onde esclarece dúvidas e passa informações sobre a saúde feminina, especialmente sobre infertilidade. Apresenta seu trabalho em congressos no exterior, o que confere a ele um reconhecimento internacional.

 

**Rogério Leão é membro da equipe do IPGO e Médico Assistente na área de Ginecologia do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM/ UNICAMP). Graduado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).  Residente em Ginecologia e Obstetrícia, no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM/ UNICAMP). Especializado em Endoscopia Ginecológica , pelo Hospital Pérola Byington (São Paulo –SP) e em Infertilidade Conjugal , pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (São Paulo –SP). Mestre em Ciências Médicas pelo Departamento de Tocoginecologia da FCM / Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Especialista em Ginecologia e Obstetrícia – (TEGO n°0732 / 2004).