ENTREVISTA SOBRE FILHOS MÚLTIPLOS

Olá! Para encerrarmos nossa semana de entrevistas, trouxemos hoje a entrevista feita por nossa repórter, Rosângela Santos, com o Dr. Nélson Antunes Jr, obstetra especialista em fertilização humana, que participou do programa Papo de Mãe sobre “muitos filhos” e “mães aos 40”. Vejam o que ele diz sobre como é ter filhos múltiplos hoje em dia. 
 
Dr. Nélson

RS: Por que esta é uma era de filhos múltiplos?

NA: Veja só, na natureza, os filhos múltiplos não são tão frequentes. Só que com o advento da fertilização in vitro, depois da década de 80, isto aumentou. Neste procedimento, como se colocava mais embriões no útero para se conseguir sucesso – e os sucessos, no começo, eram muito baixos – se punha mais embriões e, de vez em quando, dava certo demais. Então, isso se propagou e, hoje, se faz mais de um milhão de fertilizações in vitro no mundo inteiro. No Brasil, se faz pouco por causa da condição sócio-econômica. Mas na Austrália, na Finlândia, boa parte da população se reproduz através deste método. Por isto, aumentou demais a demanda, o número de gêmeos e trigêmeos devido a esta técnica.
RS: E o que mudou hoje na técnica?
NA: Na última década, se diminuiu a quantidade de embriões colocados. Raramente, se coloca mais do que 3 embriões. Na maioria das vezes, se coloca dois porque as taxas de gravidez estão tão boas que se diminuiu a quantidade para que a gente não tivesse um número maior de gêmeos e trigêmeos. É muito comum que gêmeos e trigêmeos acabem com problemas porque a mulher não deveria ter mais de 2 filhos de uma vez. Na natureza, os bichos que têm muitos filhos de uma vez (como porcos e cachorros) têm muitas mamas para serem utilizadas. A mulher só tem duas, mostrando que não deveria passar disto (de 2 filhos). Então, essa sabedoria, que a gente só vê na fêmea de cada espécie, deve ser lembrada pelos médicos que trabalham com reprodução humana.
RS: É um risco para mulher ter muitos filhos? Ter um, ter outro e depois ter múltiplos? Isto configura risco pra saúde?
NA: Veja, tanto na gemelaridade (mais de 2 de uma vez), quanto na multiparidade (um após o outro, várias vezes), vai depender da qualidade nutricional da mãe. Na multiparidade, ela vai perdendo qualidade nutricional. Há estudos que mostram que um bebê nascido após a quarta ou a quinta gestação tem menos qualidade nutricional. Pode até nascer com algumas alterações neurológicas. Então, se a idéia é ter filhos repetidamente, a mãe precisaria ter um suporte nutricional, o que raramente a população em geral tem. A mesma coisa na gemelaridade. Esta situação de ter muitos bebês de uma vez necessita um suporte nutricional para que esses nenês sejam bem nutridos e não sofram questões intra-uterinas que são, às vezes, incorrigíveis durante a vida inteira. A desnutrição intra-útero é gravíssima no prognóstico de qualidade intelectual dos bebês.
RS: Muitas mulheres chegam ao consultório dizendo “quero 2 ou 3 de uma vez só para ter uma única gravidez”, existe isso?
NA: Isto está cada vez mais frequente. Imagine alguém chegando aqui com 38, 39 anos. Ela precisa ganhar tempo e ela entende que é desta forma que ela pode fazer. Não chega a ser mentira que, se nascerem 2 de uma vez, para uma pessoa bem nutrida e com bons recursos alimentares, não chega a ser uma questão grave. Porém, 3 ou 4 seguramente é. Vejam só os números: quando tenho trigêmeos, a chance de nenhum estar em casa após um mês é 60%. No caso de quadrigêmeos é 78%. É importante que médicos avisem isso.
RS: Múltiplos podem ter um desenvolvimento igual ao de filhos de uma gestação só?
NA: Trigêmeos e quadrigêmeos têm mais problemas porque a prematuridade está associada e impõe questões importantes no desenvolvimento. A outra coisa é que óvulos repetidos num mesmo ciclo podem ter alterações genéticas. Então, a incidência de problemas genéticos são também maiores em crianças múltiplas. Além disto, em raras cidades temos recursos e berçários com unidade neonatal como nos hospitais que temos aqui em SP. A maioria do país (e das cidades do mundo) não contempla esta qualidade de berçário que necessita um bebê abaixo de 1.000 gramas. Então, tudo isto implica risco, morbidade, doenças importantes como a cegueira, o hipodesenvolvimento, os problemas pulmonares… Qualquer intervenção cirúrgica numa criança de 800, 900 gramas, seguramente impõe riscos.
RS: Hoje em dia, cada vez mais, dá para ter o controle de então conduzir a fertilização para uma gravidez de 2?
NA: Não há dúvidas de que, se a gente pegar as estatísticas dos últimos 6 ou 7 anos, esta é a tendência de todos os serviços sérios de reprodução. Isto é o certo. Está comprovado que as taxas de gravidez só têm subido, mesmo colocando-se menos embriões, pois o que está melhor é a seleção da qualidade destes embriões. Estamos mais competentes para escolher melhores embriões para conseguirmos taxas maiores do que antes e com menos riscos de trigêmeos ou mais – como aconteceu na década de 80. Então, hoje, quando sai na imprensa que nasceram 6, 7, de tratamento, se eu fosse chefe desse serviço, ficaria envergonhado disto ter acontecido.
RS: Múltiplos: mexe muito com o casamento?
NA: Veja, se um filho já mexe muito com o casamento, 2 ou 3 juntos mexe de forma, às vezes, incorrigível. Não existem muitos casais que estejam preparados para assumir esta questão de forma duradoura. Tenho uma história interessante… Em 1995, uma pessoa muito abastada, veio aqui. Depois de 3 meses do nascimento dos filhos, o marido me perguntou: “Dr.Nelson, dá para me seqüestrar??? Eu quero ficar trancado, quietinho… com pão e água… porque lá na minha casa, quando eu chego, tem tanta gente para cuidar dos bebês, que eu não consigo ver nem meus filhos, nem minha mulher! Não sei quem é quem no meio daquele monte de mulher que está lá!”. No final, ele disse que quem tem dinheiro enche a casa de empregados. Quem não tem, enche a casa de família! Eu não sei o que é pior… Então, é muito difícil uma boa estrutura para receber as crianças, cuidá-las e ainda manter o espaço do casal. Especialmente, no caso deste marido que perde o espaço para tanta gente. Com um filho só já sobra pouco tempo. Com muitos filhos, a tendência é de sobrar nada. Então, ele acaba preferindo ir assistir ao jogo do outro lado da rua…
RS: Como fica amamentação de múltiplos?
NA: O sonho da amamentação é a complementação do sonho da maternidade, mas é muito raro que a gente consiga amamentação exclusiva em gêmeos, e mais raro ainda, em trigêmeos. É uma coisa que a paciente precisa ser preparada antes: saber que é impossível nutrir 3 bebês que ficam com fome em horários discordantes.
RS: E como faz?
Acaba tendo rodízio, e eles mesmos se ajeitam …
Por hoje é isto, gente. Esperamos que tenham curtido nossa semana de “vale a pena ler de novo – entrevistas“. Mas amanhã tem mais novidade no blog porque no próximo domingo o Papo de Mãe volta a ser apresentado em horário normal (19 horas) e com um tema super bacana: relação entre irmãos. Não percam!!!  

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