DEPRESSÃO PÓS-PARTO: palavra de especialista

Gestação e transtornos mentais
 Fonte: FREBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obsterícia
A gestação é fator de risco para a recaída de uma condição psiquiátrica pré-existente ou para o início de um novo transtorno mental. Prova disso é a alta prevalência de transtornos de ansiedade e de humor em gestantes. Segundo Joel Rennó Júnior*, diretor do Programa de Atenção à Saúde Mental da Mulher (ProMulher) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, um dos motivos que favorece tais recaídas é o aconselhamento, por parte de alguns obstetras, de descontinuar o uso de psicotrópicos antes da concepção.
Dr. Joel Rennó Jr.
“Mulheres com depressão crônica, mantidas com antidepressivo mas aconselhadas a descontinuá-los durante a gravidez têm chance de recaída elevada, em torno de 75%.”
Dependendo do diagnóstico psiquiátrico e do nível de gravidade dos sintomas, a falta de tratamento específico ou o abandono da medicação na gestação pode prejudicar o desenvolvimento do feto.
“Além de menor aderência ao pré-natal, estas mulheres podem tender a se alimentar de forma inadequada e apresentam maior risco para algumas doenças clínicas, como o diabetes gestacional. Uma pesquisa da Universidade de HARVARD, publicada no JAMA em março de 2009, aponta que o diabetes gestacional aumenta em duas vezes o risco de depressão pós-parto”.
Os transtornos de ansiedade e depressão na gestação, explica o psiquiatra Rennó Júnior, estão entre os principais fatores de risco para depressão pós-parto, enquanto a ansiedade crônica não tratada na gestação pode levar a parto prematuro, baixo peso ao nascer e até ao abortamento espontâneo.
A falta de tratamento adequado da mãe, após o parto, também é prejudicial ao desenvolvimento dos filhos.
“Mulheres com depressão pós-parto não tratadas adequadamente podem levar a prejuízos do desenvolvimento cognitivo e de linguagem após o nascimento. Muitas crianças com transtornos depressivos têm este histórico. Psicoses no pós-parto com alterações de juízo e crítica, delírios e alucinações favorecem a auto-agressividade, suicídio e infanticídio”.
Segundo Rennó Júnior, investigar o início e o curso de doença psiquiátrica materna na gestação tem de ser uma prioridade de todo obstetra. “O tratamento farmacológico de tais pacientes requer ampla discussão dos riscos e benefícios de quaisquer psicotrópicos utilizados, em conjunto com o psiquiatra”.
Diagnóstico
Um grande estudo de coorte, desenvolvido por Evans e cols, em 2001, com 14.000 mulheres, sugere que a depressão pode ser até mais comum na gestação do que no pós-parto. “Cerca de um terço tem o primeiro episódio depressivo na gestação, apesar de sabermos que a história pessoal de doença afetiva aumenta o risco de depressão gestacional. Entre os fatores de risco, destaco a insatisfação pessoal, suporte psicossocial inadequado, eventos de vida adversos, baixo status sócio-econômico e gravidez indesejada”.
O especialista frisa que muitos sinais e sintomas neurovegetativos durante a gravidez, que ocorrem em mulheres não deprimidas, podem ser confundidos com sintomas depressivos característicos, como distúrbios do sono e apetite, diminuição da libido e baixa energia.
“Na gravidez, casos de anemia, diabetes gestacional e disfunção tireoidiana podem ser associados a sintomas depressivos. Aspectos clínicos que podem dar suporte ao diagnóstico de depressão na gestação incluem anedonia, sentimentos de culpa e desesperança e pensamentos suicidas. Daí a importância de um trabalho em conjunto com o psiquiatra especializado em saúde mental da mulher, a fim de que não haja subdiagnóstico ou diagnósticos excessivos.”
Tratamento
Os tratamentos dependem do diagnóstico específico, da gravidade dos sintomas, do histórico pessoal de transtorno mental e do curso da doença, explica Rennó Júnior. “Geralmente, há três períodos: fase aguda, até melhora total dos sintomas psíquicos; fase de continuação, para evitar recaída, que tem média de 4 a 9 meses; e fase de manutenção, para prevenir novo episódio, que dura ao menos um ano”.
O psiquiatra é o melhor profissional para elaborar um tratamento individualizado, com avaliação apurada de todos os riscos e benefícios. Rennó Júnior comenta que a depressão unipolar, a mais comum, é tratada com antidepressivos. A bipolar requer estabilizadores de humor e não é recomendável antidepressivos, pois podem até piorar o curso e provocar uma virada para o pólo ou fase de mania. Transtornos de ansiedade, por sua vez, devem ser tratados, prioritariamente, com antidepressivos, enquanto os quadros de psicose com antipsicóticos.
Riscos
Todo médico deve estar ciente de que não existe medicamento psicotrópico sem riscos. Porém, é possível basear-se em evidências científicas e experiência clínica para avaliação adequada. “O trabalho interdisciplinar é importante. Já recebi pacientes de obstetras bem abertos a tais questões. Porém, infelizmente, há profissionais radicais que contra-indicam antidepressivos e outros psicotrópicos em qualquer gestação, sem avaliar todos os fatores envolvidos à luz da ciência. Involuntariamente, isso pode causar sérios prejuízos à mulher e ao bebê. Extremismos e irredutibilidade devem ser evitados a todo custo.”
*Dr. Joel Rennó Júnior é médico e diretor do Programa de Atenção à Saúde Mental da Mulher (ProMulher) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, e autor do Livro “Mentes Femininas” (Editora Ediouro). Participou como especialista convidado do programa Papo de Mãe sobre “depressão pós-parto” exibido no dia 20.11.2011.
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