Transtornos Alimentares: Compulsão Alimentar Periódica (CAP)

BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DA COMPULSÃO ALIMENTAR
 E DE SEUS TRATAMENTOS
Alan Braga de Paula*
A compulsão alimentar periódica (CAP) compreendida como a ingestão de grande quantidade de comida em um período de tempo delimitado (até duas horas), acompanhada da sensação de perda de controle sobre o que ou o quanto se come, e que é conhecida em inglês como binge eating , apresenta-se como um problema de saúde pública que vem merecendo cada vez mais estudos e ações incisivas para seu controle e tratamento.
Para se ter uma idéia da gravidade do problema, quando a CAP vem manifestada sob a forma de uma síndrome denominada atualmente de Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) – ou seja, quando esses episódios compulsivos ocorrem pelo menos dois dias por semana nos últimos seis meses, associados a algumas características de perda de controle e não são acompanhados de comportamentos compensatórios dirigidos para a perda de peso – sua prevalência, segundo o DSM-IV (1994), é de 2% na população geral. A seriedade deste quadro aumenta se a ele for acrescentado o fato de que a CAP está presente não somente sob a forma de TACP, mas também, segundo o DSM-IV (1994), em: 30% dos obesos que procuram tratamento; como um dos dois tipos de manifestação da anorexia nervosa – tipo compulsão periódica; e é um dos critérios diagnósticos da bulimia nervosa. Somando-se a isto tudo a prevalência de cada um destas patologias na população mundial, chegar-se-á a conclusão de que o problema da CAP é ainda maior. De acordo com a WHO (2002), existem no mundo mais de um bilhão de adultos acima do peso, e pelo menos 300 milhões são clinicamente obesos. Quanto à bulimia e a anorexia, segundo o DSM-IV (1994), suas prevalências são, respectivamente, de aproximadamente 1% a 3%, e 0.5% a 1% entre adolescentes e mulheres jovens.
Frente a esta epidemia mundial, deparamo-nos, como profissionais de saúde envolvidos no tratamento desta patologia, com a urgência em contribuir na apresentação de contra-partidas em termos de terapêuticas e soluções para barrar este crescimento, quiçá reduzir sua incidência. O bom-senso nos indica que, antes de qualquer investida neste sentido, é prudente analisarmos o que já vem sido feito neste campo – em outras palavras, o que, nestes tratamentos, tem tido bons e maus resultados – evitando, assim, a repetição de erros passados. Como sugestão, penso que um caminho interessante de partida, para tamanha investida, é podermos entender as particularidades das histórias de tratamentos destas pacientes.
Em pesquisas realizadas com pessoas que se auto-denominam “compulsivas alimentares”, tenho percebido, de uma forma geral, que existe um grande abismo entre o que nós, profissionais especializados em tratar esta patologia, sugerimos e a prática de tratamentos buscados por estas pacientes. Dentre estes tratamentos buscados, os que tem sido mais citados são: medicação com ou sem prescrição médica para conter a sensação de fome e para alterar o processo de absorção de nutrientes pelo intestino, laxantes, prática de atividades físicas, meditação, psicoterapia em grupo e individual, prática de escrita de diário referente ao consumo alimentar, programa intitulado “Peso Ideal”, palestras, spa e prática de dietas. Quanto a estas últimas, as mais citadas são: dieta da fruta, de tomar só suco, da lua, japonesa, chinesa, da USP, do sopão do Hospital das Clínicas, cetônica, de abstenção de açúcar, de abstenção de alimentos gordurosos, do Dr. Atkins (a qual só é permitido a ingestão de gordura e carne), abstenção de carboidratos, de comer só alimentos grelhados e dieta espiritual (que não permite o consumo de açúcar e gordura, exige caminhada e presta ajuda espiritual).
Analisando detalhadamente estes relatos, é possível perceber um aspecto comum a quase todos: ao escolher o tipo de tratamento para emagrecer e/ou controlar sua compulsão alimentar, a maioria delas tem conhecimento sobre aqueles que são eficazes, mas não conseguem colocar em prática, por um período de tempo desejado por elas, estes tratamentos, ou optam por outros de eficácia incerta, mas que prometem resultados extremamente rápidos e com a exigência do mínimo dispêndio de esforço em sua realização, os chamados “tratamentos milagrosos”.
Um outro aspecto que merece destaque, é que a grande maioria dos tratamentos utilizados e citados por estas pacientes, assim como, muitos dos tratamentos indicados por profissionais da área, se resumem a focar apenas os sintomas ou uma das conseqüências da ingestão alimentar compulsiva, e não a própria compulsão, ou seja, aquilo que causa e motiva o ato de comer sem controle.
Assim sendo, penso que todos nós – que já temos problemas alimentares, que possamos vir a ter e/ou profissionais de saúde – ao pensarmos sobre que tipo de tratamento buscar ou indicar para as pessoas que nos procuram com queixas alimentares, temos que ter em mente que os problemas de alimentação são conseqüências de uma série de fatores – psíquicos, biológicos, sociais e culturais – e não uma causa em si. Partamos para o “ataque” das causas motivacionais de tais sintomas, ou seja, daquilo que em nós tem mudado para causar tamanha mudança de nosso hábitos alimentares. Mãos a obra!
REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Diagnostic and statistical manual of mental disorders . 4. ed. Washington (DC):American Psychiatric Association, 1994.
World Health Organization, 2002. Apresenta as publicações da Organização Mundial da Saúde. Disponível em: http://www.who.int/whr/2002/overview/em/index1.html. Acesso em 02 dez. 2003.
* Psicólogo, Psicanalista, Membro do CEPPAN, Especialista em Obesidade, Transtornos Alimentares e Distúrbios da Imagem Corporal pela Faculdade de Medicina da USP, Coordenador de Pesquisa do Ambulatório de Transtornos Alimentares da Infância e Adolescência (PROTAD) do Instituto de Psiquiatria da FMUSP e mestrando em Psicologia Social da PUC-SP.

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