MENOPAUSA E A SÍNDROME DO NINHO CHEIO

Por Malu Favarato*
Malu Favarato no Programa Papo de Mãe sobre Menopausa
Eis que eu cheguei no meu limite!
Li uma reportagem ou talvez um link do Facebook, já não me lembro, que definia TPM como “Tranquilidade Pós-Menopausa”. Desejei, desde então, alcançar tão rápido quanto possível esse estado de graça. Mas quando sua filha de apenas 10 anos define a sua TPM como “Tá Pirada, Mamy”, é hora de fazer alguma coisa.
Comecei, é claro, pelos exames clínicos: Ginecologista, Cardiologista, Clínico Geral, Vascular – tudo normal, até a tão famosa oscilação hormonal própria desta fase de climatério.
Mas eu me sentindo… ou melhor, vivendo numa condição péssima. Os hormônios numa montanha russa, me batem como numa lagartixa e me jogam na parede, depois caio na cama. Meu humor variando de riso, choro e raiva num só instante e ainda a ansiedade. Ah! a ansiedade, essa acaba com qualquer traço de racionalidade que ainda possa existir em mim. Brigo, choro, me canso, a pressão sobe, tudo dói; acho que estou morrendo. Neste ponto já não é ansiedade, mas estou mais próxima de um ataque de pânico.
Tenho que me mexer e procurar ajuda especializada. E foi assim que entrei para um workshop para mulheres na menopausa.
A brincadeira funciona da seguinte maneira:  Numa grande Roda estão representadas seis Deusas Olímpicas. Cada mulher participante escolhe qual Deusa mais se identifica e senta-se neste grupo. Cada uma tem de falar e contar sua história como se fosse a Deusa escolhida. A medida que o diálogo vai esquentado, a gente pode falar como outra Deusa se tiver vontade, mas precisa mudar de lugar. Lá pelas tantas o auê está armado, mas dentro desta Torre de Babel, todas as Deusas se entendem.
As representantes de Hera (Deusa do Casamento, do status e dos “bons costumes”) assumem o controle e se gabam de finalmente estarem livres daquele desconforto mensal que tanto as importunou a vida inteira. Sem contar é claro, que agora elas têm a melhor desculpa de todas para escapar das investidas de seus maridos (por certo Zeus), que não perderão a oportunidade de se deliciarem com alguma jovem Afrodite.
Argumento rebatido enfaticamente pelas Afrodites (Deusa do Amor e da Beleza) que acham maravilhoso mesmo não sangrarem mais, mas não para escapar de Zeus ou qualquer outro deus por quem se interessarem, e sim porque terão todos os períodos do mês para transarem ao seu bel prazer.
As chorosas e deprimidas do grupo de Demeter (Deusa Mãe, gestação e do nutrir), não compreendem a insensatez de tal discussão, já que ninguém pode avaliar o que é ter um ninho vazio. Quem, pelo amor de todas as Deusas, pode pensar em sexo diante de uma questão como esta? Nunca mais menstruar. Nunca mais ser fértil e poder gerar um lindo ser: os filhos que cresceram e foram embora. Não mais ter a casa cheia de filhos e panelas sempre cheias e bolos saindo do forno e o cheiro doce de especiarias tomando conta do lar. É uma dor profunda, como se lhe arrancasse o útero.
Eu ali, estrategicamente posicionada entre Atená (Deusa da Sabedoria e da Lógica) e Perséfone (Deusa dos Mistérios e dos Mundos sutis), escuto sem ousar nem respirar mais alto.
O grupo de Ártemis (Deusa da Caça, da Natureza e da Competição) esbraveja quão desnecessária é essa discussão, já que a menopausa é uma etapa natural e inevitável da vida, e a única coisa que temos de fazer é vivê-la. E de preferência bem longe da civilização, numa comunidade escondida no meio de alguma floresta, com o meio ambiente bem preservado.
Atenás posicionam-se como se estivessem numa reunião de pós-graduação e lançam dados estatísticos de pesquisas recentes que indicam os melhores tratamentos para as mulheres viverem a menopausa como a melhor idade. Têm em mãos controles de níveis hormonais, a longevidade dos dias atuais e os avanços da medicina para a reprodução assistida. E ainda os últimos estudos que indicam que cada vez é maior o números de filhos que só deixam o lar depois dos 30 ou 40. Assim, não há o que temer, desde que se tenha foco.
As Perséfones querem entoar mantras que evocam o feminino arquetípico para harmonizar o ambiente. E aí uma Atená se dirige diretamente a mim e não posso mais escapar. Conto aquela história toda que vocês já sabem e os conselhos se multiplicam. 
Hera me manda redecorar a casa. Deméter acha lindo eu ter uma filha de 10 anos completamente ao meu lado, deixando meu ninho lindo.
Afrodite sugere, com muitas descrições apimentadas, uma nova lua de mel. Ela descreve os comichões, da excitação evidente que tal façanha me traria.  Lua de mel? – penso eu. Acho que se o próprio Apolo no esplendor de sua beleza me encantasse com sua Lira dourada não dava para rolar. Comichões só sinto porque a dita cuja está bem mais para assadinha do que para assanhadinha. Passar a noite com Apolo só mesmo para filosofar.
Ártemis me convida para uma expedição a uma comunidade primitiva e Atená concorda, dá um bom tema para uma tese. Perséfone também quer ir junto para praticar alguns rituais místicos e xamânicos.
Tenho vontade de fazer um pouco de tudo. Mas meu ninho está tão cheio que não sobra tempo para mim. Tem filha, amigas da filha, festas do pijama, panelas de cachorro quente. Casa para cuidar, profissão para investir, marido para acarinhar. E tem os hormônios!!!!!
Meu ninho está muito cheio. Vazio está o saco de paciência. Meu e de quem tem de conviver comigo.Mas depois de tanto falar e de tanto ouvir um sentimento bom brota dentro de mim. Não me sinto sozinha. Cada mulher a seu modo vive a sua menopausa do seu jeitinho e pode aprender com o jeito da outra. Uma boa conversa entre mulheres, entre amigas ajuda muito.
Marias, Marianas, Robertas, Clarissas…. um bom Papo de Mãe sempre nos faz sentir melhores!
* Malu Favarato é psicóloga e participou como convidada do Papo de Mãe sobre Menopausa, exibido em 06.10.2013.  Contato: malufavarato-filhosdourados.blogspot.com
PS: A dinâmica da Rodas das Deusas descrita no texto  é um exercício do livro “A Deusa Interior”, de Jennifer Barker Woolger. 

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