O suicídio na infância e adolescência – uma realidade que ainda não se mostra

Dr. Miguel Angelo Boarati*, psiquiatra 

solidão

O suicídio, em qualquer época, cultura ou religião, é tido como um grande tabu. Julgamentos e críticas são disparadas quando uma pessoa apresenta um comportamento suicida, que vai do desejo de morrer, passando pelo planejamento, a tentativa e a efetivação da auto eliminação.

É um assunto complicado de ser abordado, também para profissionais da saúde, gerando sentimento de frustração e raiva a esses profissionais, que se sentem aviltados, pois esse indivíduo que deseja morrer vai contra a natureza dos pacientes que buscam atendimento para recuperarem a saúde e o bem-estar.

Mas quando se fala do suicídio de crianças e adolescentes, o tema se torna muito mais difícil de tratado. Isso porque existe a crença de que o desejo de morrer não é algo que possa acontecer tão cedo na vida. Crianças e adolescentes, que estão na aurora da vida, querem brincar, divertir-se e viver e nunca desejar por fim em sua existência.

Essa é uma ideia bastante equivocada, pois ao não olhar a verdade desse problema, passa-se a acreditar que ele inexista. Pouco sabemos qual é o real impacto da existência desse problema na sociedade brasileira. Poucas pesquisas nacionais investigam em profundidade o suicídio na infância e adolescência.

No quadro abaixo listamos algumas crenças e verdades relacionadas ao comportamento suicida e que precisam estar presentes no momento em que se está diante de uma criança ou adolescente com comportamento suicida.

quadro

O suicídio é um fenômeno ainda raro na infância, mas apresenta aumento na adolescência. Nos Estados Unidos essa é a segunda causa de mortes violentas na faixa etária de 12 a 17 anos, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (2013). Em 2011, 7,8 % dos adolescentes no ensino médio já haviam tentado suicídio e desse percentual 2,4% necessitaram de tratamento com medicações de uso controlado.

Um outro estudo mostrou que 12% dos adolescentes já apresentaram ideação suicida, 4,0% apresentaram planejamento estruturado (planejaram de que forma cometeriam o suicídio) e 4,1% já fizeram uma ou mais tentativas de suicídio ao longo da adolescência. Esses números são bastante significativos, fazendo com que o suicídio nessa faixa etária seja considerado um importante e crescente problema de saúde pública.

Alguns fatores estão fortemente ligados ao maior risco de suicídio nessa faixa etária, alguns relacionados ao indivíduo e outras relacionadas ao seu entorno. Dentre os principais fatores riscos podemos enumerar a imaturidade emocional e cognitiva dos adolescentes, além da presença de comportamento agressivo, a impulsividade, a incapacidade de adiamento de recompensa, a existência de transtornos mentais associados e situações de violência, abandono e negligência.

As crianças não entendem a morte como algo definitivo, pensam em algo transitório e reversível, onde a criança poderia morrer para encontrar um ente querido que faleceu e depois voltar. Já os adolescentes têm uma melhor compreensão de que a morte é definitiva, mas o desejo de morrer pode ser ambivalente e indefinido, podendo ocorrer a partir de uma situação aguda de frustração que leva a sua ocorrência em um momento de impulsividade. Outras vezes, no entanto, pode haver intencionalidade e desejo permanente.

Os principais transtornos mentais associados a um maior risco de suicídio, principalmente em adolescentes, são a depressão, o uso de drogas e álcool e traços de personalidade emocionalmente instável. Outros transtornos mentais mais graves como a esquizofrenia e o transtorno bipolar também apresentam forte relação ao risco de suicídio.

História familiar de suicídio, conflitos familiares e no ambiente e ausência de vínculos sociais saudáveis contribuem de forma direta ou indireta com a ideação, planejamento ou a tentativa de suicídio. Filhos de pais que tentaram suicídio possuem seis vezes mais riscos de tentarem suicídio, quando comparado a adolescentes que não tiveram pais suicidas.

Outro problema bastante grave e que está presente no dia a dia do ambiente escolar são as situações de bullying, que pode ser considerado uma situação de abuso emocional crônico ou agudo. Recentemente,  o caso do garoto americano de 13 anos ganhou destaque após cometer suicídio por sofrer bullying na escola.

A avaliação de uma criança ou adolescente com ideação, planejamento ou tentativa de suicídio necessita ser realizado por profissionais especializados no tratamento dessa população. Mas é fundamental que a família e a escola estejam atentos a esse comportamento, sabendo identificar fatores de risco e encaminhar o mais rápido possível essas crianças e adolescentes para tratamentos individualizados, que envolve tratamentos psicológicos, orientação familiar e escolar, além do uso de medicações específicas em alguns casos.

O combate ao bullying na escola também é uma medida extremamente necessária para se evitar novos casos de suicídio, sendo esse um papel importante do professor e coordenador escolar.

Entender que o comportamento suicida pode estar presente mesmo em crianças e adolescentes, estudando-o em profundidade e saber que são pessoas que estão doentes e que precisam de tratamento adequado como qualquer tipo de paciente ou doença, poderá permitir medidas de prevenção.

É fundamental que se crie projetos de intervenção junto a escolas, serviços de saúde e a comunidade para o atendimento desses casos de maneira rápida e efetiva, além de se combater o preconceito relacionado a esse tema, permitindo mudar esse cenário sombrio.

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*Dr. Miguel Angelo Boarati é psiquiatra da Infância e Adolescência, coordenador do Ambulatório de Transtornos Afetivos PRATA-SEPIA IPq-HCFMUSP,  autor dos livros “Transtornos Afetivos na Infância e Adolescência: Aspectos Clínicos e Comorbidades” e “Transtornos Afetivos na Infância e Adolescência”. Participou como especialista convidado do Papo de Mãe sobre “Transtorno Bipolar “, “Fobias” , ” Desfralde e Enurese Noturna” e “Mães com Profissões de Risco”.

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