Meus filhos, sejam perdedores

Por Rodrigo Simon*, jornalista

 

– O que você queria ser quando criança?

– Eu queria ser veterinário!

– Legal! Mas por que veterinário?

– Queria curar animais.

– E o que faz agora?

– Tenho uma cadeia de açougues.

– É, parece que o senhor andou na contramão, né?

Longfellow Deeds, em A herança de Mr. Deeds.

 

Tenho 41 anos e não tenho filhos.

Se os tivesse, daria a eles um único conselho: sejam perdedores.

O mundo não aguenta mais tantos vencedores. Tanta gente esperta. Tanta gente que sabe de tudo.

É muito sucesso, é muita certeza. Não há mais dúvidas, não há mais derrotas.

Fujam dessa, meus filhos.

Nós, os adultos, estamos querendo enganar vocês. Estamos nos enganando.

Estamos tentando apagar um vazio enorme que sentimos. E que tentamos preencher com essas vitórias, espertezas, carros e relógios.

Mas esse vazio não pode ser preenchido. É nossa condição humana.

Para nós não resta esperança; para vocês, sim. É que há uma enorme diferença na maneira como olhamos para esse vazio. A psicanálise, por exemplo, diria que podemos nos ver como alguém a quem falta algo – e aí vamos passar a vida tentando preencher esse buraco com carros e relógios e barcos – ou como alguém que sabe que é não-todo. Pode parecer besteira, mas há uma grande diferença entre ser incompleto e ser não-todo. Percam a ilusão da completude.

Sejam perdedores, meus filhos.

Comecem perdendo, jogando fora, o que nós desejamos para e por vocês.

Basta uma rápida olhada ao redor para perceber que nós, adultos, não nos saímos muito bem. Tentem descobrir o que vocês, e só vocês, realmente querem. Libertem-se do desejo dos outros. Nos traiam. Inventem um mundo melhor.

E ajam diferente de nós, que nos enredamos no Império do Eu.

“Eu fiz, eu consegui, eu sei, eu ganhei”.

Sejam menos Eu. Sejam mais Tu e Nós.

Não leiam meu texto, prefiram Fernando Pessoa: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho, nunca foi senão príncipe (…) Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”

Meus filhos, comecem agora. Digam que eu falhei e que não ouvirão meus conselhos. Que farão do seu jeito.

Vocês estarão melhor assim.

Feliz dia das crianças!

rodrigosimon

*Rodrigo Simon é jornalista, com passagem pelas redações da CBN, Bandnews e TV Cultura. Mestre em Letras pela USP, é doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp. 

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