O sumiço da Pretinha

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Por José Ruy Gandra*, jornalista e palestrante

A alegria de constatar que certas histórias na vida têm um final feliz

É bem provável que Pedro tenha enfrentado um dos testes mais duros de seus 11 anos de vida. Por conta de uma mudança recente de casa, ficamos todos, momentaneamente, um tanto pirados. Pretinha, a gata, ficou um pouco mais — o bastante para que, certa noite de domingo, desaparecesse sem deixar rastro algum. Com aquela preocupação comovente com os humanos tão própria dos felinos, ela simplesmente evaporou.

Pedro ficou arrasado. Sentiu-se traído e abandonado por ela. É a segunda gata de sua vida — e das nossas, também. Ambas pretas e descaradamente vira-latas. Dessas de que muita gente ainda desvia para não ter de cruzar na rua. A primeira, Preta, foi parar na boca do apatetado labrador de um ex-vizinho.

Pretinha a sucedeu no coração de Pedro, quatro anos atrás. Virou sua paixão. Que agora deu no pé, devastando os sentimentos do garoto.

Nossos papos com Pedro a respeito procuraram ser realistas. “Gatos são mesmo imprevisíveis. Você tem de criá-los pensando que eles fazem o que dá na telha— e que, muitas vezes, o que fazem acaba nos machucando”. Em suma: gato é gato e gente é gente. Convém não gostar de um como se gosta de outro.

Foi comovente a firmeza com que Pedro se manteve durante o episódio. “Se é para encarar mais essa, vamos lá”, ele parecia nos dizer — embora, eu desconfie, deva ter dado suas choradinhas, talvez com o rosto enfiado no travesseiro, nos primeiros dias após o sumiço.

Temos um pacto antigo aqui em casa. Escolhemos com muita parcimônia as coisas a que chamamos de tristes. As outras, se não violam nenhuma lei natural ou desafiam probabilidades avassaladoras em contrário, não são tristes. São as chamadas verdades da vida. Fenômenos que, resumidamente, escapam ao nosso controle.

O sumiço de Pretinha tornou-se instantaneamente um deles. Uma verdade da vida que nos custou alguns momentos patéticos na nova vizinhança. Como dar a volta no quarteirão, tarde na noite, sacudindo feito um chocalho o pote plástico com a ração da bichana ingrata. O sumiço mobilizou os vigilantes dos arredores. Surgiam notícias desencontradas; às vezes, animadoras. Uma após a outra, porém, elas não se confirmavam, asfixiando as derradeiras esperanças de Pedro.

Certa manhã, Odalha, colaboradora que vive conosco há quase 20 anos, chegou em casa com lágrimas nos olhos. “Eu vi Tchuka! Eu vi Tchuka…”, repetia, esbaforida, referindo-se ao apelido ridículo que Pedro e ela haviam dado à gata. Não era Pretinha. Pedro não teve outro remédio que não conformar-se com o destino. Eis outra atitude muito valorizada aqui em casa: a submissão de cada um aos próprios fardos. Pedro agiu de modo comovente, resignando-se à perda.

Foi tão doce e singelamente maduro que, na manhã seguinte, o inesperado fez-lhe uma surpresa. Enquanto a manhã engatinhava lá fora, escutei um miado vindo do quintal. Abri a janela e lá estava Pretinha, firme e forte, de volta pra casa após uma semana. Dengosa e como se nada tivesse acontecido, exigia o seu café da manhã.

Acordamos Pedro, colocando-a em sua cama. Jamais esquecerei seu olhar ao vê-la. Jamais. Aquelas duas bolinhas castanhas nos desafiavam: “Estão vendo só? Nem sempre as verdades da vida são tristes”. Não mesmo!

A “Trilogia dos Gatos” continua no próximo domingo…

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*José Ruy Gandra, jornalista e palestrante, é autor do livro Coração de Pai – Histórias sobre a arte de criar filhos. Bem mais que isso, é pai de Paulo (in memoriam) e de Pedro e avô de Rodrigo (5 anos).  Participou dos programas “Papo de Pai” e “Sogras”. Contato: jr.gandra@uol.com.br . 

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