Problematizando o termo “mãe solo”

Por Helô Vianna, 37 anos, mãe da Ana (12) e da Maria (5)*
(texto originalmente publicado no facebook da autora)

 

 

Eu tenho algumas amigas que são mães solo. Elas não têm nenhuma
presença do pai de seus filhos no cotidiano. Elas são as responsáveis
exclusivas ou praticamente exclusivas por todo tempo de cuidado com os
filhos, elas tomam todas as decisões sobre a educação, a criação, as
necessidades dos filhos, com zero ou praticamente zero apoio
financeiro, zero apoio emocional, nenhum apoio na divisão das tarefas
no dia a dia. Algumas têm avós/tias/tios que dão uma mão. Outras têm
redes de apoio de amigas/amigos que salvam em algumas horas.
Mas na prática, no fim das contas, estão solo, real oficial, nessa
carreira de criar uma pessoa que tem 50% do DNA de um cara que não
chega nem perto de 50% nessa divisão de responsabilidades.

Por outro lado, faz um tempo que observo com curiosidade mulheres
separadas que dividem a guarda com os pais de seus filhos, inclusive
chamando o acordo de guarda compartilhada. E ainda assim essas
mulheres se auto intitulam mãe solo…

Eu sou mulher, feminista, sou mãe de duas meninas, tô mais do que
ligada nas cargas desiguais que a gente carrega em comparação aos
homens, não só na maternidade como na vida em geral.

Mas assim: eu não acho mesmo que o fato do peso na maioria absoluta
das vezes ser maior pra mãe justifique uma mulher separada que divide
a guarda com o pai dos filhos se referir a si mesma como mãe solo.
Tenho achado isso extremamente confuso…

Talvez pra darem visibilidade a essa divisão injusta de cargas elas
sintam necessidade de fazer uso da expressão mãe solo, como
estratégia? Se sim, pessoalmente, eu acho uma estratégia bem ruim e
equivocada.

Penso que se auto classificar como mãe solo sem ser, teoricamente,
conceitualmente, é anular a existência de um pai que existe, sim, e
que precisa existir inclusive pra que se critique e se enxergue as
suas falhas, se são pais que dividem a guarda que deveria ser
compartilhada e o fazem de forma insuficiente e pagam de “paizão”
presente ou mesmo se são pais que se esforçam pra cumprir os
combinados mas falham provavelmente porque se beneficiam em algum
momento de seus privilégios como a maioria absoluta dos homens (pra
não dizer TODO HOMEM porque senão já viu kkk) faz nos mais variados
contextos.

Se a mulher se considera mãe solo sem ser tá meio que enterrando a
possibilidade de exigir equidade daquele pai que existe, e também de
exigir da própria sociedade que enxergue as falhas e cobre desses
homens que, sim, são pais, e que precisam assumir mais as suas broncas
como pais. (um salve aos pais – sejam separados ou não – que cumprem de forma
satisfatória seus 50% nessa missão, que se liguem que não estão
fazendo mais do que o básico do básico, que não são “paizão da porra”
mas que são pais normais e ok, legal.)

E por fim, me parece um certo desrespeito com as mulheres que são de
fato mães solo a banalização/distorção desse termo. Dá no mínimo uma
atrapalhada nos conceitos, não dá?

 

*Helô Vianna, 37 anos, mãe da Ana (12) e da Maria (5). Formada em
Letras, paulistana vivendo em Ubatuba/SP, já trabalhei em muitas
áreas, quase sempre ligadas à comunicação. Hoje sou dona de um hostel
mas escrever continua fazendo parte de mim.