A origem espiritual de ser mãe

Por Eliana Oliveira, escritora, palestrante, pesquisadora dos misteriosos rituais ocultos no continente africano e coach de desenvolvimento pessoal com base na ciência espiritual
Para descrever esta conexão de ligação espiritual materna, eu resolvi relatar uma lembrança muito recente de uma passagem muito especial vivida por mim com a minha mãe. “As orações de minha mãe me alcançaram mesmo, eu estando longe do outro lado do oceano”. Ela me ensinou que a providência divina se torna real quando nós, acreditamos no amor maternal. Um amor que transcende as esferas do tempo e da distância. Esta conexão de ligação espiritual é a mais, profunda expressão de amor verdadeiro. Onde não existe uma definição para descrever o sentimento e a espiritualidade conectada ao nosso ser. Aprendi nas minhas viagens ao continente africano que o poder da espiritualidade não traz respostas. Mais sim, perguntas. Sentir e viver a espiritualidade maternal é um dom. Apesar de eu ir, sempre em busca de respostas. Eu vi através do olhar maternal de muitas mulheres, que cruzaram o meu caminho, que a vida era para ser vista com o coração e com a alma. Para que eu pudesse identificar os sinais enviados pelo mundo espiritual que nos cerca, diante da criação. Foi aí, que me dei conta que quando a gente acha que sabe tudo. A gente descobre que não sabe nada. As grandes mães africanas me apresentaram o ventre sagrado. Um canal sagrado que gera a vida, junto a ancestralidade espiritual. O que mais me chamou a atenção foi,  que elas me convidaram para conhecer a viagem pelas memórias ancestrais, deixadas para serem cumpridas por sua descendência. Para elas o ventre é um templo sagrado, que recebe a semente que irá germinar uma vida. Esta vida será acolhida pelo poder da água ou seja, Omira (Fluido amniótico no qual o embrião está imerso). Em toda a gestação esta vida terá a presença de Yemojá (Yemanjá) e Òsún (Oxum), essa energia dos quatros elementos é doce e carinhosa até o nascimento do bebê, que ao sair do ventre é recebido por Òsàlà (Oxalá), a luz, o sopro da vida. Daí um ditado muito antigo que muitos conhecem e não sabem a sua origem e tradução, deixada pelos nossos antepassados, que diz: “Ela deu à luz!” Esta origem materna é quem traz em seu ventre sagrado a Ìsèdá Oníyè (origem da vida). Uma vida que ao chegar no Àiyé(na terra) será coroado o seu Orí (sua cabeça), pela sua mãe e toda a sua ancestralidade espiritual e física. Esta vida terá por toda a sua existência esta ligação única e íntima espiritual com a sua mãe. A maternidade sem si, traz uma origem sagrada que permite a essas mulheres desde o início da gestação entrar em contato com este ser de luz, que ela carrega em seu ventre. Para elas a criação é o início da vida assim, como a palavra, o espírito, a energia e a mente deste ser que, está crescendo dentro do seu ventre sagrado. Essas mulheres vivem esta gestação sob o poder do mais puro sentimento do amor. É este amor que vibra a cada movimento no seu ventre enquanto este ser, estar se desenvolvendo e crescendo na sua barriga. Percebi que esta ligação é tão forte e cheia de simbolismo, tudo de acordo com a fé que elas carregam no seu interior que, permite o individualismo espiritual de cada uma delas. O mistério para elas começa desde, a concepção em seu ventre e a partir da confirmação da gestação. Só partir daí, elas passam por rituais de limpeza espiritual da mente e do corpo. Uma limpeza espiritual que dura o tempo da gestação até o nascimento deste bebê, onde a mulher é purificada. No dia da sua chegada ao mundo, o bebê é recebido com várias orações entoadas pelas anciãs que, dizem que Olórun – Deus irá inclinar seus olhos e ouvidos na direção daquele bebê para recebê-lo e lhe dar boas vindas ao mundo que ele criou.  Depois a mãe recebe ele em seus braços e escolhe uma oração sagrada de acordo com o seu nome e começa a falar no ouvido do bebê para, acordar o seu espírito que, ao ouvir a oração será santificado o seu destino. Foi ali que eu, vi a grande importância do papel de ser uma mãe assim, como o poder de que uma palavra pronunciada com fé, tem o poder sobre a vida de alguém.  O mais curioso é que, em todo o período da gestação a mulher não pode sofrer nenhum tipo de agressão, estresse, aborrecimento ou tristeza, tudo para não passar para o bebê. O período da gestação é sagrada, ele tem que ser vivido com amor, alegria e muita gratidão pela vida que está se formando no seu ventre. É por isso que para elas, o ventre é sagrado ou seja, é um portal que nos liga ao mundo de Olórun – Deus o criador. Também pude perceber o que lá o costume de andar com o filho preso ao corpo com por um tecido, além de ser visto como algo cultural de costume rotineiro. O simbolismo deste comportamento é de acolhimento, proteção, união e amor. Existe ali, a conexão humana e espiritual entre dois seres que se pertencem e que são da mesma matriz. Uma matriz de criação sagrada geradora de vida física e espiritual. Que permite ambas vidas estarem conectadas eternamente. Uma conexão que vai além das nossas compreensões terrenas, além da vida. Ao me permitir vivenciar esta experiência eu me vi, por muitas vezes em cada gesto e cuidados vividos por aquelas crianças. Lá o amor é sinônimo de apego assim, como a proteção é o cuidado. Cuidados que visam prepará-los para a vida que os aguarda. Assim, que eles colocarem os seus pés na terra, para caminhar em busca do seu destino. E antes que eu me esqueça de dizer; os seus primeiros passos também são santificado. A mãe põe as mãos sob o Orí (a cabeça) da criança e o abençoa com votos de bênçãos, fertilidade, felicidade, riqueza, amor, saúde, proteção e vida. Assim, como o liberta das pendências, maldições e pragas deixadas pelos antepassados que podem influenciar na escolha e no destino daquela vida que está apenas começando. Ali eu pude ver o poder da existência maternal de uma mulher sobre a sua criação. Ela dá a vida, a luz, o caminho, o amor, a herança espiritual e tudo o que uma mãe pode dar a um filho. Esta é a verdadeira origem espiritual de ser mãe. E tem mais, a missão de ser mãe continua, mesmo quando ela não está mais entre nós aqui na terra.