Filhos na cozinha: alimento e afeto

Por Monique Rodrigues do Prado, comunicadora e criadora de conteúdo

 

 Apaixonada por artes e atenta as mudanças climáticas, a comida afetiva produzida pela Chefe Janine é um ato político. Mãe das gêmeas Laura e Sofia, quando as meninas completaram 03 anos, Janine foi diagnosticada com um câncer no sangue mudando para a casa da mãe para ter suporte no tratamento de quimioterapia. Na ocasião, a mãe e a tia tinham o “Maria Maria Doces” e Janine passou a ajudá-las na gestão da doceria.

Para melhorar sua performance, Janine ingressou no curso de gastronomia e daí em diante passou a canalizar sua energia para pesquisar a alimentação saudável e entender a história da alimentação, ou seja, será que tem alguma influência da cultura no que a gente come? “Foi quando compreendi que essa comida colorida bonitinha de embalagem de mercado não tem nada de nutritivo”, comenta a chefe.

Para a gastrônoma, para que o ato de cozinhar seja prazeroso e não um peso emocional de desgaste e de mais uma obrigação nas costas da mulher que muitas vezes encara tripla jornada trabalhando fora, desempenhando a educação dos filhos e trabalhando na execução das atividades domésticas, a cozinha precisa ser um lugar de partilha entre todos os membros da família.

Longe de qualquer doutrinação ou trabalho infantil e, sobretudo, adotando todas as medidas de seguranças adequadas para a idade das crianças, a Chefe vê com bons olhos a aproximação dos filhos no preparo da alimentação e na dinâmica da cozinha, visto que deixá-los por perto e convidá-los para participar do processo é uma forma de habituá-los para uma alimentação nutritiva.

Sofia com 10 anos

Laura com 11 anos

Janine defende que esse processo pedagógico é um contraponto a forma como a cozinha está estabelecida hoje, onde a mulher ainda continua a principal responsável pelas atividades domésticas: “Penso que a comida não pode ser dolorosa, sofrida, nem pra criança, nem para a família, muito menos pra quem prepara. Se toda a família participa do processo e tem uma alimentação saudável, sem industrializados processados, a criança vai aprendendo”.

Hoje, a Chefe encabeça o “Projeto Bastiana” que nasce como forma de resgate ancestral dos ensinamentos de sua bisavó materna, Dona Sebastiana, que conhecia das plantas e do que nascia ao seu redor era possível comer.  A memória da bisa e lembrança afetiva de sua comida que não tinha nenhum agrotóxico e vinha direito da terra traz um quentinho no coração da chefe até hoje.

Por isso, a gastrônoma insiste que o ato de se alimentar por ser um ato afetivo demanda carinho e responsabilidade de todo mundo da família.