Abuso emocional na infância tem efeitos devastadores

Roberta Manreza Publicado em 25/03/2015, às 00h00 - Atualizado às 07h35

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25 de março de 2015


Estudo mostra que ofensas em casa são mais comuns e prejudiciais
Foto: Blake Campbell / Freeimages

sabedoria popular já ensina que a palavra proferida, assim como uma pedra atirada, não tem volta. Um artigo publicado recentemente no Journal of Psychiatric Research, mostra que ela, dependendo do contexto, também pode ser extremamente prejudicial na formação da personalidade das crianças. O estudo, coordenado pelo professor Diogo Lara, da Faculdade de Biociências da PUCRS, mostra que basta um pouco de abuso emocional em casa durante a infância (ofensas, humilhações) para que a pessoa deixe de se sentir saudável. As chances de tentativa de suicídio aumentam 17 vezes quando esse tipo de abuso ocorre em um nível grave, o que acontece em cerca de 15% da população. Além do abuso, a negligência emocional (falta de carinho, de amor, valorização) também pode ter efeitos devastadores.

O estudo foi feito com base num questionário on-line respondido anonimamente por 10.800 pessoas de todo o Brasil. “Fizemos uma relação entre trauma de infância e traços de personalidade. A primeira coisa que chamou a atenção é que, quanto mais traumas a pessoa tem, piores são os traços que apresenta relacionados à ansiedade, atenção, foco, capacidade de resolver problemas, maturidade, raiva e estabilidade emocional, entre outros. A mente como um todo fica prejudicada; é um desastre global para a personalidade. Essa é uma questão importante que hoje está mudando dentro da neurociência, porque é preciso se entender o cérebro como um sistema integrado”, conta Lara.

Durante o teste, das pessoas que relataram ter passado por nenhum ou quase nenhum trauma (emocionais e/ou físicos) em casa durante a infância, 40% se consideraram saudáveis, confiantes, com bom humor, boa disposição. Dentre os que relataram um grau leve de trauma emocional, esse número já caiu para 20%. “Basta um pouco de trauma emocional para cair pela metade as chances de alguém não se considerar uma pessoa saudável. Os estudos feitos anteriormente apenas com personalidades doentias e traumas graves não conseguiam observar essa proeminente queda de saúde com tão pouco trauma de ordem emocional”, observa o professor.

Segundo o estudo, são muito mais comuns abusos e negligências do ponto de vista emocional. Mais de 50% da população teria passado por algum grau de abuso ou negligência desse tipo, 15% a 20% num nível grave. “O que realmente marca as pessoas de forma negativa é o abuso emocional, são as ofensas, humilhações, a falta de carinho, de apoio, de se sentir amado. O nosso organismo, há muito tempo, vem se desenvolvendo e evoluindo para lidar com a adversidade física, e o faz de maneira espetacular.  Entretanto, temos apenas cerca de 100 mil anos de linguagem, ainda não tivemos tempo de evoluir para termos um mecanismo de defesa emocional quando o nosso pai ou mãe, que são nossas primeiras referências na vida, dizem que somos idiotas. Acabamos acreditando que realmente somos e isso afeta a nossa autoestima de modo profundo.  É necessário fazer ações para combater isso. O que é mais importante para um pai do que querer que o seu filho não tenha um conceito negativo sobre si mesmo?”, alerta Diogo Lara.

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