Ana Teberosky: “O diálogo com a criança deve ser rico em vocabulário”

Roberta Manreza Publicado em 28/04/2016, às 00h00 - Atualizado às 07h56

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28 de abril de 2016


Psicóloga e psicopedagoga, catedrática da Universidade de Barcelona, na Espanha, fala sobre a importância do acesso das crianças a uma rica linguagem

Anna Rachel Ferreira – Nova Escola

Ana Teberosky Psicóloga e psicopedagoga, especialista em Psicologia da Educação e catedrática da Universidade de Barcelona, na Espanha

Na intenção de que as crianças respondam rapidamente a comandos do dia a dia, os adultos tendem a usar uma linguagem simplificada, tirando delas a chance de ter acesso à diversidade do idioma. Quando o professor adota essa postura em classe e não utiliza construções e vocabulários mais complexos com os pequenos, está não só negando informações a eles mas também impedindo que se crie uma equidade de saberes na sala – uma vez que as relações familiares são diferentes e cada criança tem um repertório.

Essa é a opinião da pesquisadora argentina Ana Teberosky, catedrática da Universidade de Barcelona, na Espanha. Em visita ao Brasil, a convite da ONG Laboratório de Educação, a especialista conversou com NOVA ESCOLA e defendeu que as crianças precisam ter acesso a uma linguagem rica, em múltiplas situações.

Como os adultos influenciam na construção da linguagem infantil?
ANA TEBEROSKY A aprendizagem de uma língua acontece inicialmente no contexto familiar, meio em que adultos e crianças interagem naturalmente. Estudos têm mostrado que, nessas relações, nem todas as construções de linguagem aparecem de maneira igual. Os diálogos se baseiam principalmente em intenções específicas – questionar, dar ordens e fazer pedidos – em que predominam certas estruturas de frase, como as perguntas e as colocações imperativas.

Por que não se deve simplificar o diálogo com as crianças?
ANA Quando você conversa normalmente com elas, permite que desenvolvam habilidades de argumentação e construção de frases mais complexas, para além da resposta imediata a uma questão. O diálogo com a criança deve ser rico em vocabulário. Os especialistas defendem que, quanto maior a variedade de modos de interação, maior a gama de estruturas gramaticais e vocábulos aos quais a pessoa tem acesso e mais possibilidades de compreender a estrutura da língua. Ao ouvir uma palavra que não conhecem – o adjetivo “orgulhoso”, por exemplo -, os pequenos podem perguntar: “O que quer dizer orgulhoso?”. Esse processo de compreender o que já sabem, identificar o que ainda não sabem e questionar o adulto é fundamental.

Como o nível socioeconômico da família interfere na aquisição da linguagem?
ANA Ele não influi diretamente, mas pode ter um impacto indireto. Sabemos que existem diferenças culturais relacionadas à linguagem. Há adultos que, na produção da língua oral, têm marcas de registro escrito, outros não as têm, por exemplo. Isso exerce influência sobre o que se fala, como se fala, em que oportunidade se fala e o que se espera das crianças. Fatores culturais e educativos são muito importantes nesse sentido.

Na escola, o professor recebe crianças de contextos culturais distintos. Como lidar com essa diversidade?
ANA O educador precisa interagir com os pequenos para conhecer os registros de fala que cada um possui. Pode, então, planejar os momentos de comunicação. É importante ter clareza do que deseja que a turma aprenda e estar atento para garantir que os gestos e as expressões usados em classe sejam coerentes com essa expectativa. Se, por exemplo, o professor quer promover o desenvolvimento da linguagem de um grupo de crianças de 3 e 4 anos, mas sempre se coloca frente à turma e faz um longo monólogo, dá pouco espaço para a interação individual. Ter consciência do seu objetivo é pressuposto para conseguir criar condições de alcançá-lo.

As práticas de leitura também auxiliam na construção da linguagem dos pequenos?
ANA Sim, com certeza. Tanto na família quanto na escola, a leitura é uma atividade muito atraente porque apresenta ao interlocutor os diferentes mundos linguísticos possíveis. Devemos ler para as crianças não só porque elas ainda não são leitoras autônomas mas também porque a linguagem dos livros é diferente da que se produz em uma conversação – ela tem maior densidade lexical e diversidade de construções.

Há um modo ideal de conduzir essa prática na Educação Infantil?
ANA Para uma boa leitura, alguns questionamentos são fundamentais: qual livro será lido, como e em quais condições. O Brasil conta com uma produção incrivelmente boa, de muitos autores. Existem obras indicadas para determinadas faixas etárias e essas referências precisam ser levadas em conta. Vale também organizar o ambiente, que tem de ser confortável. Esse momento é fundamental para o aprendizado e o desenvolvimento das crianças, tanto do ponto de vista cognitivo como linguístico.

Ler uma história é diferente de narrá-la de memória? O que é mais indicado na escola?
ANA No escrito, você lê sempre o mesmo texto, enquanto a narrativa depende da nossa capacidade de memorização. Há contadores de história que decoram um conto e podem repeti-lo várias vezes e outros que vão fazendo alterações. As crianças são sensíveis às mudanças, então, se lhe apresentam contos em determinada forma, preferem voltar a ouvir as mesmas versões. A habilidade linguística de quem conta também deve ser considerada. A ideia é reproduzir um alto nível de vocabulário e estruturas gramaticais diversificadas. Nem todo mundo consegue fazer isso contando uma história e, portanto, a recomendação geral é que se faça a leitura do livro em voz alta. Isso não quer dizer, no entanto, que uma prática é boa e a outra ruim. São apenas diferentes.

Como esse trabalho cuidadoso com a leitura influencia no desenvolvimento do vocabulário, da ortografia e da gramática?
ANA As crianças reconhecem as histórias, memorizam os contos e sabem dizer perfeitamente o que concerne a um ou a outro. Além da questão do conteúdo, elas também pensam sobre a forma. Coisas como a pontuação, a citação direta ir junto ou separada do texto narrativo, símbolos de admiração e pergunta são formas que elas vão aprendendo no trabalho de leitura. Há ainda questões ligadas à estrutura narrativa, ao vocabulário, ao conhecimento de mundo e à literatura. Todas essas referências podem ser usadas pelos pequenos em suas próprias produções, quando ditam um conto ou criam um novo utilizando segmentações e estruturas que aprenderam.

Qual a relação entre esse cuidado na construção da linguagem e a alfabetização?
ANA Nós, como somos muito alfabetizados, não temos consciência de quanto a forma escrita impactou nossa maneira de pensar, de organizar o mundo e de criar nosso próprio repertório. A escrita é uma modalidade de linguagem e se relaciona com ela de diversas maneiras. Do ponto de vista didático, o que nos importa dessa relação é que existe a mútua influência. O desenvolvimento da oralidade serve para a aprendizagem de quem escreve. E vice-versa: o conhecimento escrito ajuda a aumentar o desenvolvimento oral. Vale lembrar que as duas práticas interagem em uma relação recíproca ao longo da história e da vida de cada pessoa.

O fato de estarmos imersos na cultura digital também exerce influência na aquisição da linguagem?
ANA A presença do digital em nossa sociedade é indiscutível. As crianças veem esse uso no dia a dia e podem explorá-lo de diferentes maneiras. Telefones celulares e computadores são utilizados para a comunicação de modo oral e escrito – possibilitam falar, escutar, mandar mensagem e se ver por meio da tela. A distribuição das tecnologias é até mais igualitária do que a dos livros. Os pequenos trazem esses contatos para a escola e os educadores têm de aprender a trabalhar com eles. Muitos ainda não sabem ao certo como as crianças podem usar a tecnologia para produzir informações novas. Por isso, desenvolver atividades usando meios digitais exige reflexão e planejamento. É importante estudar as novas mídias e as possibilidades de empregá-las em sala.

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