Cidadania se constrói na infância! 

Lugar de criança é na escola e isso é e sempre deverá ser uma mantra de qualquer sociedade moderna. Mas, uma cidade que acolhe as crianças deve ir muito além de boas escolas e “parquinhos” bem cuidados nas praças. 

Roberta Manreza Publicado em 22/09/2020, às 00h00 - Atualizado às 11h23

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22 de setembro de 2020


Por Marina Bragante*, mestre em Administração Pública pela Universidade de Harvard, formada em psicologia pela PUC-SP

Como em todo o resto, a pandemia da Covid-19 também demonstra como as cidades estão despreparadas para atender as crianças. Nesse momento, a saúde física e mental das crianças vem sendo impactada por conta do confinamento. Um levantamento chines, citado pela revista Crescer de junho deste ano, revela que alguns dos efeitos imediatos da pandemia nas crianças são: dependência excessiva dos pais (36%),  desatenção (32%), preocupação (29%), problemas de sono (21%), falta de apetite (18%), pesadelos (14%) e desconforto e agitação (13%).  O desafio de lidar com esse novo cenário aos 3 ou 6 anos é pesado.

Cerca de 860 milhões de crianças no mundo chegaram em casa da escola um dia e não voltaram mais. Sem gastar energia “lá fora”, os reflexos são: irritação, agitação, falta de sono, entre outros, a depender da idade e das características da menina ou do menino. Os sinais têm sido vistos no corpo dos pequenos, pelos próprios pais. Uma dor de barriga ou de cabeça recorrente, comportamentos regressivos como voltar a chupar chupeta, correr pra cama dos pais à noite ou retroceder no desfralde. Essas são algumas pistas que mostram que as crianças estão mais instáveis, precisando de acolhimento e segurança.

Como sabemos, essa situação de medo e constante ameaça do COVID-19 não vai passar tão rápido, e por isso precisamos nos dedicar a repensar  a nossa relação com a cidade em que moramos, e encontrar formas com as quais as crianças possam usufruir do espaço público sem aglomeração.

Uma cidade que é acessível às crianças está pronta para acolher todos os demais. Essa máxima vem sendo observada nas melhores práticas do urbanismo mundial, pois mostra que o espaço que acolhe e estimula os pequenos, faz automaticamente o mesmo por idosos, pessoas com deficiência, cidadãs e cidadãos em toda nossa diversidade.

Os primeiros seis anos de vida de um ser humano são marcados por intensos processos de desenvolvimento. São as experiências, descobertas e afetos experimentados nesses anos, que impactarão o futuro dessa criança. Essa importante  janela de tempo é chamada de primeira infância, período no qual a criança precisa ser cuidada, acolhida e estimulada para garantir que todo seu potencial de desenvolvimento seja alcançado  .

Para o poder público, investir na primeira infância é, segundo o prêmio Nobel James Heckman, o melhor investimento possível. Em seus estudo, Heckma calcula que a cada US$1 de recurso público investido na primeira infância, US$7 retornam em benefícios para a sociedade. Trata-se do investimento público mais eficiente de todos!

Não à toa, essa deve ser uma das pautas prioritárias das campanhas eleitorais deste ano.

Muito além da escola  

Lugar de criança é na escola e isso é e sempre deverá ser uma mantra de qualquer sociedade moderna. Mas, uma cidade que acolhe as crianças deve ir muito além de boas escolas e “parquinhos” bem cuidados nas praças.

Precisamos ter adolescentes e adultos se relacionando cada vez melhor e mais intensamente com a cidade. Cabe a nós, governantes e representantes da população no poder público, garantir que as crianças tenham essa relação desenvolvida a partir de pequenas praças espalhadas pelos bairros; a atribuição de territórios educativos no caminho da criança para a creche ou escola como intervenções culturais e de brincar em que a criança se divirta e estabeleça relação com sua comunidade. É essencial que a cultura e a mobilidade de São Paulo  sejam pensadas  a partir do quanto a criança pode interagir e absorver de cada espaço público.

Um dos meus desejos é que São Paulo invista na aproximação das políticas o públicas com as crianças: por meio de visitadores da saúde da família, técnicos do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), outros profissionais da assistência social e da educação garantindo que cada família tenha a possibilidade de estabelecer uma relação de cuidado e afeto com suas crianças. Parece fácil, mas em meio a tantas adversidades e vulnerabilidades as relações humanas podem ser bastante prejudicadas, o que pode afetar em especial o desenvolvimento integral das crianças.

Em tempos de mudança e caos, como o que estamos passando, temos a necessidade de mudar. Essa mudança pode, e deve ser para melhor! Acredito que estamos pronto para investir na relação de cuidado com as crianças e com a nossa cidade, fazendo com que nos sintamos em casa também quando estivermos ocupando o espaço público. Tenho certeza que quanto antes investirmos no afeto, melhor será o desenvolvimento de nossas crianças.

*Marina Bragante é mestre em Administração Pública pela Universidade de Harvard, formada em psicologia pela PUC-SP. Trabalha na gestão pública há 15 anos, foi Chefe de Gabinete da deputada estadual de São Paulo pela REDE, Marina Helou, Secretária Adjunta de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, trabalhou na CMSP (Câmara Municipal de São Paulo) por seis anos e na Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento do município de São Paulo. É líder do movimento Vamos Juntas, líder RAPS (Rede de Ação Política para a Sustentabilidade) e foi aluna do Renova BR. Tem 41 anos e mãe dos trigêmeos Lorena, Olívia e Lucas.

Assista ao Papo de Mãe sobre a criança e a cidade.