As sequelas da pandemia nos nossos filhos

A sensação de medo que atinge as crianças e os adolescentes é real e olhar para isso com empatia vai ser primordial agora e nos próximos meses ou até anos.

Roberta Manreza Publicado em 22/10/2020, às 00h00 - Atualizado em 28/10/2020, às 13h31

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22 de outubro de 2020



Por Rafaella Gato – mãe de gêmeos, pediatra do Saúde4kids* e cardiologista infantil

Tenho observado nos últimos 4 meses, tanto no consultório quanto no ambulatório de cardiologia infantil, um número crescente de pré-adolescentes e adolescentes com queixas como dor no peito, falta de ar, dor de cabeça, dificuldade para dormir, tristeza ou até irritabilidade extrema

Após o susto da chegada da COVID19 no Brasil no final de fevereiro deste ano, muitos de nós adultos jovens ou não, passamos por diversas fases: aceitação, revolta, luto, euforia, medo e tristeza. Principalmente para quem tem filhos ou mesmo divide o mesmo teto com crianças e adolescentes a situação tem sido algo no mínimo, desafiadora. Achamos que dentro do nosso mundo “adulto” pagador de boletos, somente nós estamos com toda a carga mental destes dias nos ombros já que temos que dar conta da casa, do trabalho, do cuidado de toda a família (aqui me dirijo especialmente às mães), a adaptação à aula online, preocupação com nossos pais, parentes e amigos, o preço do arroz, as queimadas no pantanal e mesmo o medo de alguém que a gente ama pegar o vírus ou até com o nosso medo de adoecer e morrer…

Porém, tenho observado nos últimos 4 meses, tanto no consultório onde atendo pediatria geral, quanto no ambulatório de cardiologia infantil em serviço de referência na rede privada aqui da cidade de São Paulo, um número crescente de pacientes na faixa pré-adolescente e adolescente, com queixas como dor no peito, falta de ar, dor de cabeça, dificuldade para dormir, tristeza ou até irritabilidade extrema, que tem levado os pais até aos serviços de emergência ou de volta ao consultório do pediatra ou especialista.

Mas o que este momento de pandemia tem trazido de ruim neste contexto para os jovens e os nossos pequenos? Hoje já existem estudos que relacionam o estado emocional deles com fatores que surgiram ou foram acentuados no últimos meses: aumento da violência doméstica, diminuição de atividade física, insegurança alimentar, diminuição do acesso a saúde (consultas de rotina), aumento do tempo de tela, alterações da rotina de sono, dificuldade do entendimento do excesso de informações, situações de stress diversas e afastamento das atividades escolares. Refletindo em comportamentos de maior dependência do pai ou mãe, dificuldade para manter a atenção e concentração, ansiedade, inquietação e irritabilidade.

Estudo com mais de 350 crianças na China observou que situações como dependência excessiva dos pais e desatenção estavam presentes acima de 30% destas e que mais de 20% das crianças se diziam preocupadas ou com alterações do sono. Sintomas menores relatados numa parcela menor deste grupo foram: falta de apetite, pesadelos, desconforto físico e agitação.

Sob esta perspectiva então, como podemos ajudar? É muito importante ter um espaço seguro para conversar com eles, ajudando a criança a expressar seus sentimentos, ter escuta ativa e respeitosa, procurando não minimizar as preocupações que aparecerem e ouvi-los com afeto. É interessante criar rotinas no dia a dia com horários bem definidos para atividade física (dentro ou fora de casa), estudo, tarefas domésticas, brincadeiras, tempo de tela (tv, vídeo game, celular) e tempo junto da família, sempre incentivando laços familiares e de amizade (dias e horários para ligações de vídeo para os avós, por exemplo).

A sensação de medo que atinge as crianças e os adolescentes é real e olhar para isso com empatia vai ser primordial agora e nos próximos meses ou até anos. A Unicef, através do Fundo das Nações Unidas para Infância, publicou 8 dicas de como conversar eles sobre o assunto:

https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/unicef-divulga-8-dicas-para-falar-com-criancas-sobre-o-novo-coronavirus

1 – Faça perguntas abertamente e ouça a criança;

2 – Seja honesto: explique a verdade;

3 – Mostre à criança como proteger ela mesma e seus amigos;

4 – Ofereça segurança;

5 – Verifique se elas estão sendo estigmatizadas ou espalhando estigmas;

6 – Procure quem pode ajudar;

7 – Cuide de você (pai/mãe);

8 – Encerre as conversas com cuidado.

Dessa forma, perceber que não estamos sós no nosso mundinho de preocupações e sofrimentos com toda a mudança que a pandemia nos trouxe, é sim um ato de amor e coragem. Olhar para dentro de si dá trabalho e pode ser muito doloroso, imagine isso para uma criança ou um adolescente. Se haverá algo de positivo nisso tudo será perceber em detalhes (bons ou ruins) os aspectos mais profundos de quem amamos.

*Saúde4kids

O amor à medicina uniu as médicas: Fernanda, Rafaella e Ana. Além da vocação em servir aos pequenos, elas tinham outra certeza: precisavam ajudar as mamães. Perceberam que muitas estavam perdidas nesse caminho cheio de novidades e incertezas que é a maternidade e, na busca por informações, as mamães se perdiam ainda mais.

http://saude4kids.com




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