Do Fundamental para o Ensino Médio: uma transição sem tumulto

Roberta Manreza Publicado em 08/02/2015, às 00h00 - Atualizado em 10/02/2015, às 10h48

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8 de fevereiro de 2015


Essa passagem exige atenção dos diretores e ações que facilitem a adaptação

Alice Ribeiro  – Gestão Escolar

“Será que vou conseguir aprender as novas disciplinas? E os meus amigos de classe, vou perdê-los? Que ambiente vou encontrar na escola nova?” Questões como essas costumam angustiar os jovens que estão prestes a deixar o Ensino Fundamental para ingressar no Ensino Médio. A inquietação não é à toa. A maneira como os percalços dessa transição são enfrentados pode determinar a continuidade ou não dos estudos. Para ter uma ideia, de acordo com o Censo Escolar de 2011, 18,1% dos jovens repetiram o 1º ano da última etapa da Educação Básica e 11% abandonaram a escola justamente nessa série – o que faz dela a campeã histórica de reprovação e evasão no país.

Há tempos que esses índices são altos. Tanto que muitos educadores acham que o choque da mudança de segmento é natural – e, com isso, nada fazem para combatê-lo. “Qual a razão para um aluno sair apto do 9º ano e não ser aprovado no ano seguinte?”, questionou Maria Beatriz Paupério Titton, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ao elaborar sua tese de doutorado, defendida em 2010. Por 12 meses, ela acompanhou estudantes do 1º ano do Ensino Médio em duas escolas públicas de Porto Alegre, encontrando-se com eles periodicamente para que comentassem sobre os sentimentos e os desafios enfrentados na transição.

O resultado mostrou que a sensação de incapacidade para aprender os novos conteúdos era grande, porém a queixa principal foi em relação à falta de acolhimento e de atividades que proporcionassem um maior convívio escolar – como Feira de Ciências e Semana da Leitura. “Esses eventos, além de importantes para a aprendizagem, também promovem a integração entre os alunos e entre eles e a comunidade”, explica Maria Beatriz. A relação mais distante com os professores foi outro fator apontado pelos entrevistados. Embora a fragmentação das disciplinas já tenha se iniciado no Fundamental, a sensação dos estudantes é que o único contato com o docente se dá durante a aula, sem haver acompanhamento em caso de dúvidas e dificuldades.

Some-se a tudo isso o período conturbado que a adolescência representa, com mudanças físicas e emocionais que podem interferir no comportamento dos alunos. “Para alguns, a passagem é uma conquista, com mais liberdade e autonomia. Para outros, ela representa a quebra de amizades e rotinas”, afirma Celi Lovato, supervisora pedagógica do Colégio Maxi, em Londrina, a 305 quilômetros de Curitiba.

Para o aluno ter uma transição tranquila, mantendo a motivação para os estudos, é preciso repensar o papel da escola nas duas pontas do processo. Isso, muitas vezes, envolve um trabalho conjunto entre unidades e redes de ensino distintas, já que, em geral, o jovem cursa o Fundamental em uma instituição do município e o Médio em uma estadual. A iniciativa de alguns gestores tem mostrado que ações simples são bastante eficazes para amenizar a mudança.

Orientações sobre os cursos disponíveis facilitam a escolha da escola

“Muitos jovens não tinham êxito quando saíam daqui e, por isso, decidimos ajudá-los”, afirma Rosângela Monteiro, diretora da EM Gilberto Jorge, na capital gaúcha. Entre as atividades realizadas com o 9º ano estão as visitas às escolas de Ensino Médio da região. Além disso, ela e a coordenadora pedagógica, Márcia Loguércio, aproveitam as assembleias escolares para falar de aspectos importantes a serem ponderados na decisão, como as opções de cursos, a localização da escola e o turno. “Muitos optam por ficar perto dos amigos sem se importar com a distância da escola em relação à sua casa. Isso pode não parecer um problema à primeira vista. Contudo, se surgirem outras dificuldades, esse fator acaba favorecendo a desistência”, diz a diretora. No fim do segundo semestre, as reuniões de pais começam a tratar desse assunto também, para que eles possam, em casa, conversar e orientar os filhos. É nessa época que os alunos preenchem uma ficha, indicando três estabelecimentos de sua preferência para continuar os estudos.

Antes mesmo de iniciarem a nova fase, os jovens são convidados a continuar a frequentar a antiga escola. “Deixamos a biblioteca à disposição para que façam pesquisas e as portas sempre abertas para encontros com os antigos colegas e professores”, conta Rosângela. Alguns ex-alunos se tornam voluntários em atividades como contação de histórias para os menores. Tudo isso contribui para manter um elo com esses estudantes, facilitando o mapeamento que a diretora faz para saber o rumo que cada um tomou: se terminou os estudos, entrou na faculdade ou começou a trabalhar. “Percebo que houve um progresso na permanência e na conclusão do Ensino Médio. Se as escolas que recebem nossos alunos também se engajarem, o resultado será ainda melhor.”

O sucesso da recepção, contudo, vai além da cerimônia de boas-vindas. “Acolher bem também significa oferecer um ensino adequado. Se o aprendizado não faz sentido, há grande chance de o adolescente não querer mais estudar”, afirma Suely Bernardi, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo.

Saída tranquila: Medidas de incentivo ao longo do 9º ano para tornar a passagem menos brusca

Quando os alunos vão trocar de instituição, é interessante: Organizar visitas a unidades de Ensino Médio da região; orientar os jovens sobre a importância de escolher uma escola perto de casa; sugerir para os alunos que não trabalham que cursem o período diurno; promover encontros de ex-alunos; chamar os pais para conversar sobre a transição.

Se a escola oferece o Ensino Médio, é possível: Planejar algumas aulas nos laboratórios do 1º ano; promover encontros entre os estudantes dos dois níveis; introduzir no planejamento do 9º ano alguns conteúdos do Ensino Médio; adaptar o horário do intervalo para que as turmas do 9º e do 1º ano se integrem.

Promover grupos de estudos favorece o entrosamento dos novos estudantes

Foram os altos índices de abandono e reprovação que fizeram com que Roberto Cláudio Bento da Silva, diretor da EEFM Menezes Pimentel, em Potengi, a 526 quilômetros de Fortaleza, criasse em 2009 uma rotina para recepcionar os recém- chegados. Naquela época, dos 126 matriculados no 1º ano do Ensino Médio, 35 foram reprovados e 36 abandonaram os estudos. Cenário bem diferente do de 2011, quando 75 dos 85 alunos foram aprovados.

O esforço da equipe gestora tem sido no sentido de garantir que ninguém se sinta excluído do processo de aprendizagem. Nas boas-vindas, os novatos conhecem a infraestrutura da escola, participam de atividades culturais e são apresentados à nova organização curricular. “Explico aspectos do funcionamento escolar, como o aumento da carga horária semanal, de 23 para 25 horas, e a introdução de novas disciplinas, como Química, Física e Biologia. Porém não deixo de falar sobre a importância dos estudos para a vida deles”, afirma Roberto.

O processo de ambientação, como a escola chama esse período inicial, dura dois meses. Passada a semana de integração, tem início a revisão do conteúdo do 9º ano – o que acontece em 15 dias. Depois disso, uma avaliação diagnóstica fornece os dados sobre o nível de conhecimento e indica os conteúdos que têm de ser reforçados. Durante um mês, a coordenação pedagógica organiza horários de monitoria, em que o professor estabelece um contato individual com os alunos para ajudá-los na adaptação. Também são formados grupos que mesclam estudantes veteranos e novatos e de diferentes níveis de aprendizagem. Logo após as primeiras provas, tem início a recuperação paralela no contraturno para os que não tiveram um resultado satisfatório. Gilderlânia Gomes de Almeida, 16 anos, e alguns amigos vindos de uma instituição municipal, não foram bem-sucedidos em Matemática. Matriculados no período vespertino, fizeram a recuperação paralela à noite, conseguindo assim acompanhar as aulas do bimestre seguinte sem problemas. “Tinha muito medo de não passar de ano e me prejudicar”, diz a jovem, que pretende prestar vestibular para Direito daqui a dois anos.

Exemplos como esse, reitera Suely, do Cenpec, mostram que a transição pede atenção dos gestores de ambos os segmentos. “A escola de Ensino Fundamental deve se esforçar para que o aluno aprenda e ganhe maturidade para a nova etapa. Já a de Ensino Médio tem de considerar que lida com adolescentes, muitos com déficit de aprendizagem, que precisam de cuidados e de professores que acreditem neles”.

Recepção acolhedora: Fazer o acompanhamento da aprendizagem é fundamental na adaptação do aluno.

Ao receber os alunos vindos do Ensino Fundamental, é importante: Apresentar a escola e organizar atividades de integração; explicar o novo currículo;  oferecer atendimento pedagógico individual e dar atenção aos faltosos para que não abandonem a escola; promover aulas de revisão e recuperação paralela para os alunos com dificuldade de aprendizagem.

Dica: Assista ao Papo de Mãe sobre A Transição entre o Ensino Fundamental e o Médio.




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