FILHOS MÚLTIPLOS: Aspectos psicológicos da gravidez múltipla

Aspectos psicológicos da gravidez múltipla
Por Solange Melo*
Desde 1978, quando nasceu Louise Brown, o primeiro bebê de proveta do mundo, cresceu muito a quantidade de famílias com filhos múltiplos.
As preocupações começam na gestação, mais sensível e arriscada. Para a maioria das famílias, isso exige muito planejamento, trabalho e amparo dos parentes mais próximos. O desafio de criar filhos múltiplos é enorme, até porque tudo se multiplica: o cansaço, as preocupações, o trabalho e os custos financeiros.
De início, vem a surpresa, depois a alegria e, em seguida, as preocupações com as questões práticas inerentes ao aumento significativo e inesperado da família. Em geral a mãe fica com a sensação de que nunca está fazendo as coisas 100% para cada um dos filhos, o que a deixa com sensação de culpa. Dividir a atenção de modo que nenhum dos filhos se sinta prejudicado é constante motivo de angústia para ela. E para que isso não aconteça é preciso sempre delegar tarefas e revezar.
Filhos múltiplos podem até ser muito parecidos, mas não são iguais e respeitar suas individualidades é tarefa permanente e imprescindível para os pais, em especial. Confundi-los entre si, faz com que a mãe se sinta culpada, por achar que nunca teria esse direito, exatamente por serem seus filhos.
Gestante de múltiplos, a mulher, paralelamente à alegria multiplicada, sente também medo, ansiedade, pelo risco real do abortamento e da prematuridade, inerentes a uma gestação desse tipo. Isto interfere no seu emocional e na sua qualidade de vida, pois cada semana de gestação é uma etapa a ser vencida, rumo, no mínimo, à 37ª, que representa uma maior maturidade física aos fetos, aumentando a sua chance de sobrevivência.
Quando nascem prematuros, frequentemente, a mãe tem alta da maternidade e os bebês lá permanecem, o que, muitas vezes, desestabiliza a mãe, que sonhou em sair do hospital com seus filhos no colo. Além disso, ela diariamente tem que voltar lá, para dar assistência ao filho, deixando outros em casa. Em alguns casos, ela permanece internada juntamente com esses bebês, até que eles tenham alta, o que pode durar muito tempo. Todo esse desconforto gera culpa, pois vivemos numa cultura em que “ser mãe é padecer no paraíso”. Será mesmo?
A curiosidade a qual é exposta juntamente com seus bebês, seja na maternidade onde está internada, seja na vizinhança onde mora, gera desconforto e cansaço físico a essa mãe que já está sobrecarregada.
Desafios financeiros, físicos e psicológicos, a chegada de filhos múltiplos, pode ser (e, muitas vezes, é ) uma ameaça ao casamento, gerando crises conjugais sérias e até mesmo levando à separação, normalmente, em até 2 anos após a chegada dos bebês. Isso, em geral, acontece por vivermos numa cultura ainda machista que sobrecarrega a mulher e isenta o homem de muitas responsabilidades inerentes à família. Pensando nisso, algumas dicas são preciosas para casais que vão passar ou já estão passando por essa experiência:
– deleguem tarefas, não tentem dar conta do recado sozinhas, pois isso, em primeiro lugar, não será possível e em segundo, não dará bom resultado caso tentem.
– se puderem, contratem babás. Se isso não for possível, peçam ajuda aos familiares mais próximos.
– assim que possível, retomem gradativamente a vida social do casal, mesmo que de início isso inclua sair em família juntamente com outros casais com filhos.
– ser mãe não exclui ser mulher. Desta forma, não esqueçam a importância da vida sexual do casal. De início isso pode até parecer impossível, mas os dois tem que criar oportunidade para que a intimidade do casal não se perca ou o risco da relação terminar é grande.
– ser mãe, e em especial de múltiplos, parece ser absolutamente incompatível com a vaidade feminina, simplesmente porque parece não haver tempo para nada mais, além de trocar fraldas, amamentar, dar banho e consultas ao pediatra. Traduzindo: entra a mãe, sai a mulher. Erro grave, até porque por mais que a rotina seja exaustiva e, muitas vezes, não há com quem dividi-la, a cobrança desse comportamento inadequado, mais cedo ou mais tarde, chegará. E de ninguém ela poderá cobrar, a não ser dela mesma.
É importante deixar claro que, em caso de filhos múltiplos ou não, nunca se consegue cuidar de 2 ou mais filhos de maneira igual, pelo simples fato de que cada um é único e solicita os pais de formas diferentes. O amor é o mesmo, mas a criação não pode ser a mesma.
Apesar das semelhanças de terem chegado juntos, os pais não devem estimular igualdades (ex: “por que você não é tão estudioso como seu irmão?”), nem incentivar as diferenças (ex: “sua irmã é mais bonita que você”). Isso só pode aguçar ainda mais a rivalidade, já tão comum entre irmãos.
Favoritismos devem ser evitados sempre, em especial quando o assunto em questão é filhos múltiplos. Comportamentos imparciais e justos devem predominar sempre ou serão um desastre para a autoestima dos pimpolhos.
Por terem dividido espaço até mesmo no útero, as rivalidades entre filhos múltiplos poderão ser mais exacerbadas. Nesses casos, a imposição de limites se faz necessária sempre, para todos, e de forma justa como forma de exemplo a ser seguido. Quando isso não acontece, tais crianças tendem a se tornar rebeldes e com sérios problemas de relacionamento entre si e com as demais pessoas.
E quando ocorrem óbitos de prematuros, em caso de gravidez múltipla, isso acarreta sérias implicações emocionais, principalmente para a mãe e para o irmão sobrevivente. Nesses casos, o desafio é triplo: aliviar a própria dor, aliviar a dor da criança sobrevivente e conviver para sempre com a lembrança do filho perdido no rosto do que ficou.
Tratar filhos múltiplos como uma unidade é um erro grave e, inconscientemente, neles, só exacerba a rivalidade, a competitividade, o ciúme e a agressividade. Exemplo clássico de um erro grotesco é pais se referirem aos filhos como “os gêmeos”.
Filhos múltiplos prematuros que tiveram difícil recuperação, em geral,  tendem a ser mais superprotegidos pelos pais quando crescidos. Tal comportamento, a princípio inofensivo, pode ter sérios desdobramentos psicológicos, gerando fantasias de favoritismo por parte dos pais.
Mulheres que após uma gravidez de múltiplos abandonaram suas carreiras profissionais, em geral, costumam pagar caro por tal decisão, embora de início ela tenha sido muito bem fundamentada na necessidade real de cuidar dos filhos. Em relação a esta questão, vale a pena pensar muito bem antes de tomar uma decisão que poderá influenciar e muito a sua vida financeira, conjugal, social e, como consequência, a sua autoestima.

*Solange Melo é picoterapeuta de adultos, casais e famílias em São Paulo e já participou como especialista convidada do Papo de Mãe.  Contatos: twitter: @Solange_psico. E-mail: gabinetedepsicologia@hotmail.com.

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DICA DE HOJE
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