O que aconteceu quando larguei a carreira

Por Andréa Werner*, jornalista e redatora do blog Lagarta Vira Pupa

Meu avô materno era um cara extremamente sério e, na minha visão de criança, parecia carregar um mau humor constante, quase como se as cuecas estivessem sempre apertadas. Machista – como a maioria esmagadora das pessoas de sua geração -,  dizia que “curso para mulher era magistério”. Minha mãe, que era excelente em matemática e sonhava em fazer arquitetura, teve que desistir do sonho. Talvez por isso, ela sempre incentivou as filhas a fazerem uma faculdade e a terem sua própria profissão. A não “dependerem de marido”.

E lá fomos nós fazer o que a mamãe sempre disse que era o ideal. Minha irmã fez Direito na UFMG e, hoje, é funcionária pública concursada. Eu comecei a trabalhar cedo, como ajudante de professora de pré escola. Nessa época, ainda cursava o ensino médio. Alguns anos depois, prestei vestibular para Jornalismo na PUC Minas. Só que o meu pai, na época, não tinha condições para pagar a faculdade. Arrumei um emprego no call center do antigo “Banco Real” e trabalhava ali das 14hs às 20hs diariamente, tentando não dormir nas aulas que aconteciam no período da manhã.

E foi desse primeiro emprego de carteira assinada que tirei um dinheirinho para fazer um curso de inglês de um mês no exterior. Mas, chegou a hora da formatura e eu não sabia que rumo tomar.Tive uma breve experiência com TV durante a faculdade. Apresentei um programa na TV Universitária (canal a cabo) chamado “Acontece BH”. Gostei muito daquilo tudo, mas tinha plena noção de que não conseguiria um emprego na Globo simplesmente deixando meu currículo na portaria. Eu tinha que conhecer pessoas…e, infelizmente, eu não conhecia ninguém.

Último semestre da faculdade, pânico que aumentava na mesma medida dos meses que passavam. Andando pela sala de casa, topo com um caderno de jornal jogado no chão. No canto superior, em letras azuis garrafais, o aviso: ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA O TRAINEE DA GESSY LEVER. Aquilo chamou minha atenção! Peguei o jornal e fui ler os detalhes. Já tinha ouvido esse nome “Gessy Lever” (hoje, Unilever) em algum lugar. Acho que no rótulo do sabão em pó. “Deve ser empresa grande”, pensei. Trainee também me soava a coisa boa. Eu já tinha lido alguma coisa sobre isso. Entrei no site, fiz minha inscrição e comecei a participar das seleções através de dinâmicas de grupo (coisa da qual não sinto a menor saudade, inclusive).

E não é que eu passei? Minha mãe chorava quando recebi a notícia. Acho que ela pensava “por que fui incentivar a menina a querer ter uma carreira?”. É que ela sabia que eu teria que me mudar de Belo Horizonte para São Paulo. Não foi fácil nem pra ela nem para o meu pai lidar com isso. Mas lá fui eu de mala e cuia. Caí no mundo corporativo com todo o meu déficit de atenção em Janeiro de 2001.

Depois da Unilever, outras grandes multinacionais vieram. Casei, engravidei, Theo nasceu, vida seguiu. Trabalho também. Até que, aos 2 anos, veio o diagnóstico de autismo. E foi aí que a conta começou a não fechar mais.

Como eu ainda trabalhava fora, Theo ia para a escola de manhã e, na parte da tarde, ia com a babá para as terapias. Não demorou muito para percebermos que esse esquema não estava sendo positivo pro bolso e para a cabeça. O custo não fazia sentido. E eu não conseguia acompanhar o que estava sendo feito com ele direito. Eu mal sabia responder o que as terapeutas estavam trabalhando com o meu menininho.

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Foto: arquivo pessoal

Falei isso tudo até aqui para chegar a este ponto: a decisão de parar de trabalhar fora é extremamente delicada. Para começar, nem todo mundo pode cogitar esta possibilidade. Principalmente se a casa tiver uma criança com deficiência, o que eleva significativamente os gastos com escola e terapias, já que o governo não cumpre seu papel em fornecer o básico.

Mas, para quem tem a possibilidade, independente dos motivos, a decisão deve ser tomada em conjunto pelo casal. Afinal, vai impactar no estilo de vida e na renda total do domicílio. Vai impactar, também, no psicológico dos dois. Não é todo cara que vê a mulher executiva virar dona de casa de uma hora pra outra e leva isso numa boa.

E a mulher? Vai pensar “minha mãe está decepcionada comigo… queria tanto me ver com uma profissão e sem depender do marido”. Pode pensar também “meu marido vai perder o interesse por mim… admiração é importante em um casamento. Ele amava me ver como uma executiva. O que sobrou agora?”. Sim, tudo isso passa pela cabeça!

Além de seus próprios questionamentos, vai ouvir os dos outros – porque todo mundo se acha no direito de dar palpites! Vai escutar coisas como “tem certeza?? Você precisa se garantir de alguma forma! E se o seu casamento acabar??”. E tem, também, o clássico “vai ser madame sustentada pelo marido?”.

Passados 5 anos dessa decisão difícil, posso dizer que não me arrependo. Passamos por alguns apertos financeiros no início, mas foi tudo questão de ajustes. E, algum tempo depois, viemos morar no exterior, onde os impostos são altos, mas não temos gastos com escola e terapias para o Theo.

Para ocupar a cabeça, em 2012, comecei um blog. Ele cresceu, virou referência, de uma forma que eu jamais imaginei.

Estou em um processo de “redescobrimento de mim mesma”. Passei de “Andréa Werner, gerente de X” a “Andréa, mãe do Theo”. Qual o próximo passo? Quem sou eu de verdade? Quem estou me tornando? No final de contas, acho que a lagarta que virou pupa fui eu! E a metamorfose está acontecendo diariamente. O que será que vai sair desse casulo?

Uma coisa eu já descobri: minha verdadeira vocação. E não é ser gerente de coisa alguma: é escrever e ajudar. Meu primeiro livro sai em maio. Sei que vão vir outros. E, assim, acho a tão sonhada realização profissional que achei que nunca mais teria. Estou tomando, de novo, as rédeas da minha vida.

Parar de trabalhar fora é uma decisão delicada, sim. Mas não é o “fim da carreira”. Pode ser um recomeço, um processo de autoconhecimento que vai gerar frutos no futuro.

Por isso, se você pensou bem, pesou seus motivos e decidiu parar de trabalhar fora, a única dica que eu dou é “ocupe sua cabeça”. Ignore as perguntas sem noção e ache alguma atividade que te dê prazer. O autoconhecimento vem daí. O seu redescobrimento também. E o que vai vir depois… bem… garanto que você vai ter histórias pra contar!

 *Andréa Werner é mãe, jornalista e redatora do blog Lagarta Vira Pupa

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