Abuso Sexual Infantil: o que os desenhos são capazes de revelar

Clarissa Meyer

Na noite deste último sábado (10), um coronel reformado da Polícia Militar, de 62 anos, foi preso em flagrante no Rio de Janeiro sob acusação de estupro de uma menina de apenas 2 anos. O policial, flagrado em um carro com a menina completamente nua e chorando muito, ainda ofereceu suborno aos policiais militares para evitar a prisão. A polícia só chegou até ele graças a uma denúncia anônima.

A notícia reacende os debates sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes, uma questão ainda cercada de muitos tabus, medos e omissões.

Números no Brasil

De acordo com informações da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania, o Disque 100, somente nos primeiros quatro meses deste ano, recebeu quase 5 mil denúncias sobre exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes.

São Paulo tem a maior quantidade de registros, com 796 reclamações, 16% do total nacional. Em seguida, estão a Bahia, com 447 registros; Minas Gerais, com 432 casos denunciados; e o Rio de Janeiro, com 407.

A maior parte das vítimas é do sexo feminino. A distribuição etária é variada: 31% das denúncias indicam violência sexual contra adolescentes de 12 a 14 anos, 20% das denúncias se referem a adolescentes entre 15 e 17 anos, e outros 5,8% de crianças entre 0 e 3 anos. Há relatos em todas as faixas etárias.

Os suspeitos, em sua maioria, são homens (60%). Grande parte das denúncias indicam casos que aconteceram no ambiente familiar: os denunciados são a mãe (12,7%), o pai (10,54%), o padrasto (11,2%) ou um tio da vítima (4,9%). Das relações menos recorrentes entre o suspeito e a vítima são listados também professores, cuidadores, empregadores, líderes religiosos e outros graus de parentesco.  

Como identificar se uma criança foi vítima de abuso sexual

Seja revelando claramente através das palavras, por meio de alterações no comportamento ou até mesmo por desenhos, a criança sempre mostra algum sinal do abuso. Geralmente, ela se sente de alguma forma culpada e preocupa-se com a consequência das suas informações para si ou para a sua família.

Em 2010, uma exposição organizada em Palma de Mallorca, Espanha, reuniu 18 desenhos de crianças e adolescentes com idades entre 5 a 15 anos, que em algum momento de suas vidas foram vítimas de abuso. A exposição fez parte da campanha  “Los monstruos de mi casa (Os monstros da minha casa)”,  realizada na ocasião do lançamento do documentário, que reúne testemunhas e experiências de pessoas que sofreram abusos na infância.

As imagens, interpretadas por especialistas, são impressionantes. Veja algumas.

Andreu, 8 anos - Foi abusado pelo padrasto desde os 4 anos. No desenho ele se representa em pânico, e dá atenção especial ao zíper da sua calça e aos botões de sua camisa, que para ele representam um símbolo de quando os atos sexuais iriam começar.

Andreu, 8 anos – Foi abusado pelo padrasto desde os 4 anos. No desenho ele se representa em pânico, e dá atenção especial ao zíper da sua calça e aos botões de sua camisa, que para ele representam um símbolo de quando os atos sexuais iriam começar.

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Fernando, 13 anos – Ele foi abusado pelo seu pai desde cedo, e agora mora com a mãe, que conseguiu fazer com que ele se recuperasse bem. Ele desenhou o pai como um demônio em um bar, bebendo cerveja e jogando em caça-níqueis. Os riscos saindo do demônio representam o cheiro de álcool. Fernando sente raiva quando mencionam o pai perto dele.

 

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Elena , 6 anos – Elena sofreu abusos sexuais do seu pai. Agora ela vive com a vó. No desenho, ela coloca sua avó e sua mãe bem grandes. Ela se sente protegida perto das duas. Ela também representa o pai abusando dela, bem pequeno, em cima das letras.

 

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David, 8 anos – Ele sofreu abuso sexual. No desenho, ele destaca os olhos e o pênis do agressor. Ele escreveu também “marica” e “chupa-rolas”. O agressor falava isso enquanto o abusava.

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Isabel, 8 anos – Foi abusada sexualmente pelo pai. No desenho ela retrata o momento do abuso. O pai a colocava numa cadeira pra penetrá-la por trás. Na parte superior da imagem, ela retrata o irmão mais novo, que ficava vendo tudo acontecer pela porta.

 

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Joan, 8 anos – No desenho, a criança coloca o homem que a estuprava numa gaiola, fechada com um cadeado, e a chave (no canto superior direito) protegida por espinhos, para ninguém conseguir pegá-la.

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Marina, 5 anos – Era abusada pelo pai, que também a obrigava a assistir filmes pornô. No desenho, ela retrata um dos filmes que assistiu. Ela disse ao especialista que nesses filmes as pessoas “ficavam peladas e faziam coisa feia”.

 

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Ester, 9 anos – Ela desenhou a posição que tinha que ficar enquanto o seu pai a abusava.

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Toni, 6 anos – O especialista pediu para desenhar a pessoa que o abusou. O menino respondeu: “é um monstro”. Destacou o pênis ejaculando.

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Andrea, 10 anos – Representou como eram os abusos, onde ela tinha que tocar o pênis do homem, enquanto ele tocava a sua vagina. Ela ficou com vergonha de responder as questões do psiquiatra e aceitou escrever as respostas no desenho, por isso os “si” e “no”.

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Victor, 7 anos- Ele era obrigado, a partir dos 4 anos de idade, a fazer sexo oral no seu pai. A linha que sai da sua boca e vai até o pênis do pai, representa a sua língua.

Como denunciar casos de violência sexual

Em situações de suspeita ou confirmação de violações de direitos humanos de crianças e adolescentes, ou especificamente de violência sexual (abuso ou exploração sexual) você deve fazer uma denúncia. Saiba onde fazê-la:

  • Disque Direitos Humanos – ligue 100 – A Secretaria de Direitos Humanos recebe denúncias de forma rápida e anônima e encaminha o assunto aos órgãos competentes em até 24 horas. A ligação é gratuita, anônima e com atendimento 24 horas, todos os dias da semana.
  • Delegacias Especializadas – Em diversas cidades do País existem delegacias especializadas em crimes contra crianças e adolescentes. Caso não haja uma delegacia especializada em sua cidade, dirija-se à delegacia comum mais próxima para encaminhamento de queixas e denúncias.
  • Conselhos Tutelares – Os Conselhos Tutelares são órgãos que zelam pelo cumprimento dos direitos das crianças e dos adolescentes. Veja a lista completa de conselhos tutelares no portal da Secretaria de Direitos Humanos: Http://www.sdh.gov.br/assuntos/criancas-e-adolescentes/cadastro-nacional-dos-conselhos-tutelares-2. Em município onde não há Conselhos Tutelares, as Varas da Infância e da Juventude podem receber as denúncias.
  • CREAS / CRAS – Os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) realizam o atendimento básico à população em geral e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) oferecem o atendimento direto e especializado a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Localize as unidades por estado ou município no portal do Ministério de Desenvolvimento Social e faça a denúncia. Em São Paulo: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/assistencia_social/cras/index.php?p=1906
  • Ministério Público – Em relação a infância e juventude, o Ministério Público de todo Estado conta com um Centro de Apoio Operacional (CAO) – que pode e deve ser acessado na defesa e garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes.
  • Polícia Rodoviária Federal – O Disque 191 é o telefone nacional e gratuito da Policia Rodoviária Federal e recebe denúncias de casos de violência e exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas brasileiras. O atendimento é 24 horas, todos os dias da semana.
  • Polícia Militar – O 190 é o telefone da Policia Militar, para ações emergenciais. A ligação é gratuita e com atendimento 24 horas, todos os dias da semana.
  • Crimes contra os direitos humanos na internet – A Safernet é uma organização social que recebe denúncias de crimes que acontecem contra os direitos humanos na internet, incluindo pornografia infantil e tráfico de pessoas. Acesse:  http://new.safernet.org.br/denuncie
  • Aplicativo com números e endereços de instituições do Sistema de Garantia de Direitos – O Proteja Brasil é um aplicativo para smartphones e tablets criado para facilitar denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Por meio dele, é possível obter os telefones e endereços de delegacias, conselhos tutelares e outras instituições do sistema de garantia de direitos mais próximos de você. Acesse: www.protejabrasil.com.br
  • 123 Alô: a voz da criança e do adolescente – serviço que permite que você seja ouvido quando quiser dizer o que sente e o que pensa. É um importante canal de diálogo com crianças e adolescentes que muitas vezes não tem que com quem conversar sobre assuntos delicados e individuais. Esse serviço funciona por telefone se você estiver no Rio de Janeiro, ou por chat se você estiver em qualquer lugar do mundo. O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 9h até 13h e de 15h às 19h. Nos sábados, domingos e feriados, o atendimento não funciona. Clique aqui para conhecer mais sobre esse serviço.

Papo de Mãe recomenda:

 

Assista ao Papo de Mãe sobre Os Direitos das Crianças, Desenhos Infantis e Sexualidade.


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