Therezinha Topa Todas

Por Luis Cosme Pinto*, jornalista, autor do Livro de Crônicas Ponte Aérea.

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– Qual o irmão do seu irmão que não é seu irmão?

– hum…dá uma pista.

-Que pista, bota a cachola para funcionar, garoto.

Ela adorava as adivinhações. Trunfos para dias de chuva, às vezes de escuridão, numa época em que os blecautes eram tão comuns. Era preciso acalmar os três peraltas naquele sala e dois quartos, de pouco mais de 60 metros quadrados.

Com amor e humor, minha mãe sabia encantar os 3 filhos. Se um de nós estava doente e por isso não podia brincar na rua, ela cobria a cama com almofadas e travesseiros, depois jogava um cobertor e transformava aquilo numa cordilheira, alisava com as mãos outra parte da manta e surgiam vales, colinas. Aí espalhava pelo terreno acidentado soldadinhos de chumbo e cavalos. Ao lado, carroças com mantimentos e armas. Do outro lado, no alto das montanhas, índios prontos para a batalha sangrenta! A preparação nos consumia de um jeito que o desfecho do combate pouco importava.

Minha mãe sabia brincar. Gostava de brincar.

Jogava futebol de botão, sinuca, totó, pingue pongue, dominó, cartas, dama, varetas…

Batalha Naval, Banco Imobiliário, Mico Preto, ela também sabia e como sabia.

Era afiada na Forca, no Pontinho, no Jogo da Velha

Therezinha nunca desanimou com filho que não estudava, tomava a lição de todos. Repetia, repetia. Incansável. Como numa brincadeira.

Os afluentes da margem direita do Amazonas. Purus, Juruá…

A tabuada.

A raiz quadrada.

Sinônimos, antônimos e coletivos.

Você, leitor desprevenido, sabe o coletivo de borboletas?

Minha mãe sabia.

Tinha uma didática só dela, que nos fazia decorar os tais “Conhecimentos Gerais”, os conteúdos de hoje.

Antes das provas de Geografia tínhamos que dizer as capitais, do Rio Grande ao Amapá, do Acre ao outro Rio Grande. Por exemplo, se você esquecia a capital dos gaúchos vinha uma dica, “quem não está triste, está,,,” Se a dúvida fosse no Pará, lá vinha ela, “qual o som dos sinos?” Em Roraima, “quem usa óculos é porque não tem?”

Que adolescente ou criança não adora receber os amigos em casa? Minha mãe gostava mais do que a gente. E eles amavam a anfitriã. Dependendo da compra do dia no supermercado Mar e Terra, de Vila Isabel, tinha misto quente com Nescau, cachorro quente com Grapette, pastel de queijo com Ki Suco. Não importava se era trabalho em grupo, tira teima no War, ou reprise do Campeonato Carioca.  O cardápio estava garantido.

Uma noite, depois da novela, quando achou que dormíamos, ela foi pra janela com os olhos molhados. Mirava longe, lá depois da Aldeia Campista, sem nada ver. Chorou de soluçar. A gente teve medo, até rezou, mas no dia seguinte, ela e meu pai estavam novamente falando dos vizinhos, da mensalidade escolar, do gosto da carne assada.

Neste Setembro fariam 62 anos de casados. Meu pai se foi e ela esqueceu. Dele, da gente, da família, de tudo. Logo ela.

A gente vai amar e lembrar por toda a vida da Therezinha, a mamãe sabe tudo.

Em tempo, lá na adivinhação do início, se você tiver mais de um irmão, como eu, a resposta é você mesmo!

Borboletas voando em grupo formam um panapaná.

E nas capitais, não custa anotar.

Quem não está triste, está alegre, de Porto Alegre. O som dos sinos, Belém. Quem usa óculos é porque não tem Boa Vista.

 

*Luis Cosme Pinto, jornalista, autor do Livro de Crônicas Ponte Aérea. 

Sou caçula de 3, minha mãe, a Therezinha de Miranda Pinto, tem 86 anos. Ela está com alzheimer por isso digo que ela esqueceu tudo, foi tudo mesmo. Sou pai da Luisa, 23, e da Lorena, 21. 


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