Quem escuta quando a mãe preta chora?

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Por Xan Ravelli, blogueira e Youtuber

 

A primeira vez que me fiz essa pergunta, estava num quarto de uma casa que não era minha, com todos os meus pertences ali entulhados. Minha filha de 2 anos dormia no meu colo enquanto eu cobria o rosto dela com uma fralda de pano para que as minhas lágrimas não caíssem sobre ele, na outra mão eu segurava um exame de gravidez positivo e eu queria muito esse filho, mas não tinha a menor noção de como faria para gera-lo e cria-lo de forma saudável.

Passado o desespero, me senti privilegiada demais. Porque pude pegar meu telefone e ligar pra alguém que lá do outro lado me disse: “Calma, rainha, vai dar tudo certo, eu estou do seu lado pra tudo e vamos fazer o que você achar melhor. Te amo”

Minha mãe, a dona do quartinho, disse que eu poderia ficar lá pelo tempo que quisesse, já que minha casa precisaria de um milagre para ficar pronta antes que meu bebê nascesse. Não foi nada fácil, e hoje essa é minha família.

 

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Essa questão não me deixa desde então: Quem escuta quando a mãe preta chora?

Porque a maternidade só é um mar de rosas quando você tem uma grande rede de apoio, muito dinheiro ou as duas coisas. Realidade muito longe da maior parte das mães negras que ainda são maioria entre as mães solo, são 67% das que morrem durante o parto, quem menos recebe anestesia, etc. Em maioria, é a mãe negra que morre fazendo aborto em clínicas clandestinas e com remédios falsificados. É a mãe preta que, assim como nossas bisavós, pensa em matar seus filhos para não gerar mais escravos para o sistema. Posso afirmar (por experiência própria) que mães negras quando vão a um ultrassom ou consulta pré-natal desacompanhadas recebem tratamento completamente diferente – isso porque novamente fui privilegiada em contar com convênio médico.

Existem especificidades muito nítidas na maternidade negra, situações ocasionais e cotidianas que mães brancas de crianças claras não precisam se preocupar. Por isso falamos no QUADRANTE DAS ESPECIFICIDADES DA MATERNIDADE NEGRA: Saúde, auto-estima, representatividade, racismo institucional. Nesses quatro nichos podemos enumerar dezenas de ocasiões e situações que tiram o sono das mães negras.

Nas semanas seguintes falaremos de cada um deles separadamente, e também sobre dicas de programas, livros, beleza e bem estar porque afinal, merecemos.

Xan Ravelli

Blogueira e Youtuber da plataforma Soul Vaidosa, mãe de 2, musicoterapeuta por formação. Coordenadora da rede IYÁ MATERNÂNCIA de apoio a mães pretas. Observadora e pensante sobre maternidade.

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