O impacto psicossocial da Síndrome do Vírus Zika em cuidadores

Foto: Christophe Simon/AFP

          
Por Drª Pompéia Villachan Lyra, Psicóloga, Professora e Pesquisadora
São três mil duzentas e vinte seis crianças com a síndrome no Brasil
A Psicóloga, Professora e Pesquisadora do Departamento de Educação e do Programa de Pós Graduação em Culturas e Identidades (PPGECI) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) em Parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, Drª Pompéia Villachan Lyra acompanhada pela Pedagoga e Mestranda (PPGECI) Mirella Almeida Farias participou de uma reunião técnica na Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) no qual foram apresentados os dados iniciais da pesquisa, Impacto Psicossocial da CZVS em cuidadores(as) do Nordeste Brasileiro – Uma parceria Brasil-UNL, que recebe o apoio da FMCSV e em parceria com a Universidade de Nebraska (UNL).
Inicialmente foi mencionado como se deu o processo de parceria entre as instituições
UFRPE/UNL/FMCSV, que teve início em 2016, com um workshop promovido pela Fundação e pela UNL com o objetivo de contribuir para a emergência de parcerias entre pesquisadores do Brasil e da UNL. Esse workshop foi realizado em SP, com o título “IMPROVING THE LIVES OF CHILDREN: A UNL-BRAZIL COLLABORATIVE ON EARLY CHILDHOOD RESEARCH AND PRACTICE”.
E meio à emergência da epidemia do Vírus da Zika declarada pela Organização Mundial de Saúde em Feveiro de 2016, surgiu a necessidade entre os pesquisadores Natalie Wiliams, Cristhine Marvin e Cody Hollist, junto à profª Pompéia de um projeto de pesquisa voltado aos cuidadores principais das crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika (SCZ). Atualmente no Brasil, o número de casos confirmados segundo o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde até Set/2018 (BRASIL, 2018) são de três mil duzentos e vinte seis (3.226)  em todo o Brasil, sendo em São Paulo cento e sessenta e quatro (164) casos e em Pernambuco, o segundo estado atingido com maior número de casos, tem quatrocentos e cinquenta e seis (456), ficando à frente apenas a Bahia com quinhentos e quarenta e quatro (544) casos.
Apesar da atenção global ao surto do vírus Zika no Brasil quando a ONU declarou emergência internacional na saúde pública em resposta à proliferação do vírus Zika, pouca atenção vem sendo dada aos fatores psicossociais familiares relevantes para o cuidado de uma criança com a SCZ.
Segundo a professora Pompéia, o presente projeto de pesquisa visa, dentre outras coisas, obter informações que subsidiem a elaboração e implementação de uma proposta de intervenção para aumentar a capacidade dos cuidadores de promover o desenvolvimento de seus filhos com a SCZ, compreendendo o sofrimento psicológico, as experiencias de cuidado e os suportes disponíveis entre os cuidadores brasileiros que vivem no Nordeste, no Estado de Pernambuco. Teve como objetivos avaliar o sofrimento psíquico dos cuidadores de bebês e crianças com a SCZ, identificar correlatos psicossociais e contextuais do sofrimento psicológico do cuidador, descrever as rotinas familiares, demandas de cuidado e apoios desejados e resultados de intervenção entre cuidadores que relatam ansiedade e / ou depressão e descrever o contexto ecológico em que os cuidadores vivem e interagem, a fim de identificar fontes de apoio informais e formais disponíveis e necessárias.
A pesquisa teve início em Jan de 2017 no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), hospital localizado no Bairro dos Coelhos em Recife – PE. Participaram deste estudo, cinquenta e um (51) cuidadores de crianças menores de três (3) anos com a SCZ que recebem atendimento e tratamento de diversas especialidades desta instituição. Os instrumento utilizados foram questionários e entrevistas presenciais aplicados aos cuidadores responsáveis pela criança.
Segundo a professora Pompéia, os dados iniciais apontaram que todos os participantes são oriundos de nível socio econômico baixo e na maioria das vezes utilizam-se de transporte público ou carro específico da prefeitura entre duas há seis horas diárias, para ir à serviços de terapia no hospital, chegado alguns a tomar mais de dez ônibus por dia. Os dados ainda apontaram que níveis mais altos de ansiedade foram significativamente associados com menor suporte familiar e menor mobilização da família para ajudar, e que níveis mais altos de depressão foram significativamente associados com níveis altos de estresse parental, menor suporte social e familiar e mais uso de centros de cuidados para a criança, como a creche.
Os níveis de ansiedade e depressão foram menores do que se esperava. Outros desafios foram mais evidentes, como os altos níveis de estresse e necessidades moradia e suporte.
Ainda na apresentação, foi trazido pela Prof. ª e pela Pedagoga Mirella, questões sobre a chegada das crianças com a SCZ nas creches e quais as dificuldades e possibilidades enfrentadas neste processo de como as mães e os profissionais da educação vem enfrentando este processo. Esse é o tema da pesquisa de sua dissertação de mestrado que está em curso, devendo ser defendida no início do próximo ano.
Resumo com dados preliminares – Adaptação psicossocial dos cuidadores de crianças com a Síndrome Congênita do Vírus da Zika no Nordeste Brasileiro

Necessidades e adaptação psicossocial dos cuidadores de crianças com a Síndrome Congênita do Vírus da Zika no Nordeste Brasileiro

 

Equipe do Brasil

Coordenação: Pompéia Villachan-Lyra (UFRPE)

Emmanuelle Chaves (UFRPE)

Carolina Marques

Mirella Almeida

Nathaly Ferreira

Thais Naiani

 

Equipe da UNL

Natalie Williams

Chistine Marvin

Cody Hollist

Malinda Powell

 

A infecção pelo vírus da Zika durante períodos específicos da gravidez está associada à ocorrência da Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZ), um padrão de anomalias congênitas que inclui microcefalia e outras anormalidades cerebrais e deficiências sensoriais graves (FRANÇA et al, 2016). Apesar da atenção global ao surto do vírus Zika no Brasil desde fevereiro de 2016, quando a ONU declarou emergência internacional na saúde pública em resposta à proliferação do vírus Zika, pouca atenção tem sido dada aos fatores psicossociais familiares relevantes para o cuidado de uma criança com a SCZ. Este estudo tem por objetivos avaliar o sofrimento psíquico em cuidadores de crianças com SCZ em Recife/PE e identificar correlatos psicossociais e contextuais do sofrimento psicológico do cuidador. Esse estudo foi realizado em duas etapas. Na etapa 1 (estudo quantitativo), utilizamos questionários visando avaliar a ansiedade e depressão (usando as Escalas Beck de Ansiedade e Depressão; Beck, Steer e Brown, 1996; Beck, Epstein, Brown e Steer, 1988), bem como fatores que influenciam esses sintomas, incluindo estresse parental (Parenting Stress Index-Short Form; Abidin, 2012), estratégias de enfrentamento (Family Crisis Oriented Personal Scales; McCubbin, Olson, & Larsen, 2000) e recursos da família (Family Resource Scale-Revised; Van Horn, Bellis, & Snyder, 2001). Na etapa 2 foram realizadas entrevistas com 10 responsáveis pelos bebês com a SCVZ. A amostra do estudo 1 foi composta por 52 cuidadores de bebês com a SCZ que tinham, em média 31,3 anos (DP = 9,1) e todos relataram uma renda familiar total entre 1 e 3 salários mínimos. Nenhum dos participantes da nossa amostra relatou sintomas graves de ansiedade (pontuação total BAI≥ 26), mas 4 participantes relataram sintomas clinicamente significativos de depressão (escore total do BDI ≥ 29). Os maiores níveis de ansiedade foram significativamente associados a menores necessidades físicas / abrigo, menor apoio familiar e menor mobilização da família para obter ajuda. Níveis mais altos de depressão foram significativamente associados com maior estresse parental, menos apoio familiar e mais uso de cuidados infantis. A análise das entrevistas realizadas para a fase 2 está em curso. Embora ainda preliminares, entendemos que esses resultados podem contribuir para o desenvolvimento, implementação e avaliação de uma intervenção direcionada para melhorar a capacidade de cuidadores de crianças pequenas com CZVS (incluindo seus pais, especialistas em intervenção precoce e educadores da primeira infância) com vistas a maximizar o potencial de desenvolvimento dessas crianças que, em sua maioria, encontra-se em contexto de vunerabilidade.