Não é fácil, mas tem jeito certo de dar má notícia

 

Por Flávia Teixeira, psicóloga, mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ, professora de pós-graduação em Psicologia Hospitalar na UFRJ e com especialização em Aprimoramento Interdisciplinar em Transtornos Alimentares pela USP*

 

 

A época que estamos vivendo nos coloca diante de um estado de impotência e insegurança. E não me refiro apenas ao medo da contaminação do coronavírus. O pavor vem também das notícias. Já é aterrorizante saber pela TV o crescente número de mortes pelo vírus. Imagina receber uma má notícia sobre um amigo, familiar ou colega de trabalho.

 

Dar notícias ruins não é tarefa fácil. Difícil de transmitir, difícil de receber. Seja doença, morte, demissão ou falência. Qualquer informação triste, ou até drástica, pode alterar completamente a vida de uma pessoa e seus planos para o futuro. E quando é você o responsável por dar uma má notícia? Como contar às crianças? Aos idosos? Aos amigos e familiares?

 

Sim, é terrível, mas a habilidade na comunicação pode favorecer muito o momento de transmitir algo não esperado e com provável desfecho ruim. O transmissor da notícia deve ser uma referência de vínculo, de confiança. O que fará a diferença ao dar a notícia será o olhar acolhedor, a escuta atenta e a aceitação das reações. Esse comportamento é fundamental para que o outro consiga processar a informação com total liberdade para exteriorizar suas emoções.

 

Como falar com crianças e idosos

As crianças e os idosos não devem ser rotulados como incapazes de lidar com uma perda. Com os pequenos, é preciso adotar uma linguagem de acordo com seu nível de compreensão. O ideal é fazer uma sondagem antes. Pergunte se a criança sabe o que está acontecendo, até para não falar além do necessário. Fazer analogias com a natureza é uma boa alternativa: as plantas nascem, são cuidadas, vivem um período, mas morrem depois de algum tempo. Explique que o mesmo acontece com as pessoas.

 

A criança mais velha já tem mais compreensão sobre alguns acontecimentos. Com esta, use uma linguagem clara e dê espaço para ela expressar seus sentimentos. Você deve assegurar que ela se sinta acolhida e segura. E haja como tal, pois as crianças absorvem o que os adultos sentem. Se seu discurso não se igualar com suas atitudes, ela ficará insegura e confusa.

 

Omitir ou mentir também causa consequências no desenvolvimento psíquico infantil, fazendo com que as crianças criem fantasias. Ao longo da vida, esse comportamento pode afetar seu modo de se relacionar com os outros. Para que o processo de luto da criança ocorra de modo natural, é preciso ser verdadeiro, e, junto com ela, se adaptar a essa perda.

 

Já os idosos são um outro grupo que as pessoas tendem a querer proteger por acharem que são mais frágeis e não conseguirão lidar com uma notícia ruim. No entanto, são pessoas que já passaram por muitas experiências na vida, algumas boas e ruins, inclusive guerras e até outras epidemias. Os mais velhos não só têm condições de enfrentar esses eventos, como podem usar suas lições de vida para nos ajudar a lidar com nossos sentimentos. Mais uma vez, o que vai fazer a diferença é o modo como a notícia será transmitida.

 

O impacto na família e nos amigos

O grau de proximidade, o tipo de relação e a importância que a pessoa acometida tem na vida do familiar ou do amigo serão determinantes no impacto da notícia. Antes de contar, procure saber quais informações a pessoa já tem. Isso é importante para você entender o que e como vai falar.

 

Não existe momento bom para dar uma péssima notícia. O melhor que você pode fazer pelo outro é ter o máximo de empatia e solidariedade. Deixe-o à vontade para se manifestar como preferir, sem julgamentos. Tem quem prefira chorar e gritar. Outros, precisam de solidão e silêncio para absorver a informação. As pessoas podem ter as mais diversas reações, e basta você permitir que seu amigo ou familiar reaja conforme seu temperamento, procurando sempre ficar por perto.

 

Lembrando que o portador da notícia deve se preparar para o difícil comunicado. O sofrimento não diz respeito apenas ao receptor, mas também ao responsável em dar a informação. Afinal, ninguém está livre de sofrer o choque, principalmente porque todos nós já estamos num estado de fragilidade emocional constante.

 

Portanto, quando estiver à frente da situação, reflita se você está preparado. Caso contrário, não vá além das suas limitações. Peça ajuda. Ninguém precisa carregar esse peso sozinho se não tiver condições.

 

O cenário atual é realmente difícil, e cada um tem seu próprio ritmo para entender, absorver e elaborar tantas mudanças e perdas. A boa notícia é que o ser humano possui capacidade de adaptação para encontrar saídas às situações mais adversas. Podemos, sim, tomar as rédeas e ser protagonistas de uma história da qual não fomos perguntados se gostaríamos de escrever.

* Flávia fez parte do Assure Group, pela Associação de Saúde Mental de Volusia & Flagler County, em Port Orange, Flórida, Estados Unidos. Co-facilitadora do grupo, a psicóloga teve como objetivo ajudar familiares em processo de luto, inclusive crianças.