Em tempos de coronavírus como lidar com filhos adolescentes?

Por Andréa Callonere*,  Psicóloga Clínica e Miguel Angelo Boarati**, 
Médico Psiquiatra da Infância e Adolescência

O isolamento social já dura 3 meses. Nesse período tivemos que nos adaptar a muitas mudanças que definiram o dia a dia das famílias, com muita dificuldade para adaptar-se a essas mudanças e mesmo quando podemos dizer que muita coisa deu certo, reavaliamos agora, algumas dessas estratégias que precisarão ser revistas.

Especialmente para os pais de adolescentes, algumas dicas e orientações precisam ser analisadas, pois para os adolescentes, o nível de estresse causado pela perda de suas atividades rotineiras, e o afastamento de seu grupo social têm um impacto particularmente importante do que em outras fases da vida. Pais cansados e filhos descompensados têm sido o principal cenário observado nas redes sociais e na clínica de psicólogos e psiquiatras que atendem essas pessoas. Também é uma queixa trazida por professores que precisam manter a programação pedagógica, visto que o semestre (e talvez o ano inteiro) seja feita à distância.

A orientação dos pais de adolescentes em tempos de quarentena, precisa ser feita com base em dados científicos e com maior nível de evidência, pois exigirão que os pais apliquem técnicas que se mostrem realmente efetivas. Nesse ponto a Análise do Comportamento, área da psicologia que estuda o comportamento e as reações humanas pode ser de grande ajuda.

Os psicólogos Analistas do Comportamento que atendem nos consultórios, estudam e pesquisam para analisar e compreender por que e como as pessoas se comportam e consideram que os comportamentos das pessoas, são afetados e afetam o ambiente físico e social nos quais elas vivem. Podem ajudar nas buscas de uma melhor qualidade de vida para as pessoas e suas famílias e também ajudar a encontrarem soluções para muitos problemas que levam as pessoas à psicoterapia.

Seguem alguns conceitos básicos baseados na Análise do Comportamento e dicas a partir desses conceitos.

 

Conceitos Básicos

 

Adolescência

Período da vida humana, entre a infância e a idade adulta, na qual ocorrem

mudanças fisiológicas (puberdade) e alterações na forma de interagir com o

meio físico e social, também relacionadas a fatores históricos e culturais.

Adolescentes passam por transformações físicas e emocionais relacionadas ao

contexto sociocultural em que vivem, geralmente com questões relacionadas à

autonomia, sexualidade, escolhas, amizades, entre outras demandas. Os

comportamentos dos adolescentes são considerados com frequência como

agressivos, opositores, críticos, arrogantes, esquivos ou disruptivos, entre

outros. Para o Analista do Comportamento, os comportamentos resultam são

mantidos por suas consequências no meio físico e social, e são

comportamentos que se estabelecem em relações interpessoais e contextos

específicos. Assim, os adolescentes agem e reagem conforme o ambiente, por
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exemplo, se controlador em excesso podem responder com contra controle,
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mentindo ou agredindo.

 

Postura dos pais

Os pais de adolescentes devem lembrar-se de que os filhos estão em uma fase da vida de aprendizagens de novas experiências de autonomia, sexualidade, amizades, escolhas, crenças e valores. A restrição ao ambiente familiar resulta na vida dos adolescentes e adultos jovens, em um empobrecimento no repertório social importante, vivido como uma experiência aversiva para a maioria, e podemos inferir que, com refeitos mais desastrosos do que para a maioria das pessoas em outras etapas da vida.

 

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Comunicação

Os pais precisam saber ouvir e falar com os filhos em qualquer idade, assim como precisam conhecer os filhos, compreender seus gostos, conhecer seus filmes e seriados preferidos, suas opções de jogos, esportes, preferencias de esportes, comidas preferidas. A linguagem do adolescente, os valores e crenças de seus grupos e amigos.

A comunicação precisa ser “bilateral” e não um monólogo de regras e mandos*,pois o discurso punitivo de regras descritas não promove aprendizagem, e, os adolescentes aprenderão com as contingências das experiências, em ambientes onde os pais não estarão presentes, como agentes de controle. Assim informar e monitorar é a melhor forma de se comunicar afetivamente com os filhos.

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Dica 1: Com a família reunida, propor um assunto e ouvir a opinião de cada um, sem emitir crítica ou julgamentos. Saber ouvir e assim conhecer melhor os filhos.

Dica 2: Observe como você se comunica com os seus filhos, e caso seja por gritos, autoritarismo e imposição, esteja alerta, é melhor mudar sua forma de comunicação

 

Disciplina

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A disciplina no ambiente da casa mesmo com todas as alterações de rotina, como já abordamos com relação às crianças, também favorece que os adolescentes se sintam seguros, mas é preciso lembrar que necessitam de mais espaço para a autonomia do que quando crianças. É muito importante que os pais mantenham uma comunicação empática com os adolescentes, sem serem permissivos e nem tampouco autoritários.

Vale lembrar como regra que os pais são responsáveis civis e sociais por seus filhos adolescentes, e isso implica em deveres por parte de ambos.

Modelo

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Os filhos adolescentes estão atentos aos comportamentos dos pais, aprendem no ambiente familiar, principalmente se o ambiente for calmo, com os pais tendo atitudes coerentes e firmes, sem serem controladores de modo excessivo, o que poderia gerar oposições.

 

Consequências e como Consequenciar

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Todo comportamento (toda escolha) tem consequências, e é por elas mantido*. Os pais precisam ficar atentos ao fato de que consequenciar filhos adolescentes de forma reforçadora é uma tarefa bem mais difícil no contexto atual, em comparação com filhos crianças que, ao contrário podem estar motivados simplesmente em conviver mais com os pais.

 

Aprendizagem

A aprendizagem de novos comportamentos ocorre muito mais por modelos (modelagem) dos padrões comportamentais dos pais do que por longos discursos. Não perca tempo com muitas instruções, faça regras de “se…então”, que são os “combinados”. Estes acordos devem ser mantidos de modoconsistente para que sejam efetivas, ceder a pedidos e mudar as regras dificulta que os filhos aprendam e levem os pais a sério. As regras precisam ser coerentes com o contexto atual de restrição ao convívio social mais amplo, tão importante para os adolescentes, assim, é necessário flexibilizar de forma razoável o tempo no vídeo game, nas conexões com amigos on-line, nos horários de dormir, nos momentos de privacidade no banho ou no quarto.

Dica: Aprendizagem é o caminho para mudanças ocorrerem. Aprende-se de forma mais duradoura e consistente através de modelos, exemplos, elogios, combinados e suas consequências.

Comportamento adolescente

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Comportamentos adequados precisam ser elogiados sempre. Os inadequados consequenciados conforme o combinado previamente, e também muitas vezes, ignorados, não podem ser levados ponto a ponto, o que poderia desgastar a relação.

Treino

Para mudar comportamentos que praticamos há tempos, precisamos treinar e persistir no treino, em qualquer idade é difícil mudar a forma como fazemos as coisas e os adolescentes já se sentem capazes de escolher e decidir, e confrontam os pais em suas decisões e opiniões, muitas vezes para obterem respeito ou reconhecimento.

Dica: Abandonar frases rígidas do tipo “eu já tentei isso, não adiantou, meu filho não muda”. Nesse caso a maior mudança é a dos pais que devem tentar e repetir e tentar de novo.
Mudanças precisam ser treinadas.

Regras

As regras organizam e para tanto precisam ser bem explicadas pelos pais, assim como precisam ser claras as consequências do cumprimento ou não das mesmas, lembrando que os adolescentes muitas vezes querem questionar e participar da definição das regras.

Dica: Seja claro e objetivo na determinação de regras. Escute seus filhos atentamente sobre as regras a serem definidas, faça os manejos necessários e somente então, defina e feche o combinado.

Limites

Limites devem ser definidos e explicados de forma objetiva para que os adolescentes entendam e aprendam a respeitar os próprios limites e os dos familiares. Muitos pais de adolescentes ficam indignados com a postura crítica ou questionadora dos filhos adolescentes e, esperam dos mesmos, as posturas de quando eram crianças. Vale lembrar aqui da importância do treino e da análise (autoanálise) dos próprios comportamentos. Será que estou preparado para lidar com o fato de que meu filho cresceu e questiona minhas ações? Claro que as crianças também fazem isso, mas não como um adolescente pode fazer.

Dica: Saiba quais são os seus próprios limites de tolerância, e explique aos filhos de forma assertiva, observando que limites, assim como regras não devem se alterar conforme o humor dos pais, para serem respeitados

Hierarquia

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Os pais precisam lembrar e ensinar os filhos, sobre a hierarquia que existe entre eles e os filhos.
Ela sempre existirá entre vocês e seus filhos.
“Amigos seus filhos podem ter muitos, pais só vocês”.

Controle monitorado

Controlar os filhos com monitoria, conforme regras previamente explicadas, é educativo. Os filhos adolescentes podem auxiliar os pais no monitoramento, informando aos pais com quem falam, do que gostam, do que não gostam, discutir planos e projetos. Aqui é importante conhecer os filhos e participar com eles de atividades que os interessam, por exemplo.

O controle excessivo, gera ambientes com desconfiança e relações aversivas e punitivas, que impedem o filho de aprender as regras como algo bom e ainda, pode evocar sentimentos e emoções ruins, e resultar em comportamentos de contra controle, como mentiras, oposições e agressividade.

Dica: Monitorar com sabedoria vale muito mais do que controlar com rigidez. Quem monitora acompanha e ensina, promove a aprendizagem de novos comportamentos.

 

Divisão de tarefas entre os pais

O trabalho deve ser dividido entre os pais de maneira adequada. Um dos pais, não pode ser o que sempre coloca a regra e limite, enquanto o outro sempre o que premia e elogia.

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Alinhamento Parental

Os pais devem conversar e tomar decisões nos “bastidores” e não na frentedos filhos. Os pais não podem de forma alguma desautorizar o outro, mesmo que não concordem com a conduta. Outra falha séria é quando um dos pais faz um alinhamento com o filho, no lugar de alinhar com o parceiro.

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Nossa proposta é a de fornecer dicas para que os pais fiquem atentos aos próprios comportamentos no relacionamento com os filhos adolescentes, e identifiquem as mudanças necessárias nos próprios comportamentos para obterem uma melhor interação familiar. Nós aprendemos constantemente com os outros em nossas relações e, tentar compreender por que os filhos estão agindo de determinada maneira, que consideramos certa ou errada, é um bom ponto de saída para melhorar a convivência, ao contrário de julgar e criticar, tentar compreender o porquê dos comportamentos dos filhos ajuda e muito. Comportamentos não surgem do nada, existem em contextos relacionais, conforme os acontecimentos e situações antes e depois destes comportamentos ocorrerem. Analisar e compreender para modificar, através de novas aprendizagens, pode ser a solução de muitos problemas cotidianos na vida dos pais e dos próprios adolescentes.

 

*Andréa Callonere
Psicóloga Clínica
Doutora em Ciências IPUSP-PSE
Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento Mackenzie Especialista em Terapia Comportamental-IPUSP

**Miguel Angelo Boarati
Médico Psiquiatra da Infância e Adolescência
Colaborador do Programa de Transtornos Afetivos na Infância e Adolescência do IPq- HCFMUSP