Quarentena: É humanamente impossível dar conta de tudo

Por Telma Pantano*, Fonoaudióloga e Psicopedagoga 

 

ESTRATÉGIAS E ORIENTAÇÕES SOBRE O DESENVOLVIMENTO DE ATIVIDADES ESCOLARES

Com a quarentena surge a necessidade de ficarmos com as crianças em casa e uma avalanche de recomendações e orientações vem assombrando os pais com as obrigações das crianças principalmente aquelas do ambiente educacional. Os pais além do home-office sentem- se na obrigação de dar suporte pedagógico para as crianças, refeições, deixar a casa limpa e organizada, manter o bom humor e o astral da casa.

Infelizmente é humanamente impossível darmos conta de todas essas funções. Devemos rever as nossas limitações e, principalmente as limitações das crianças. Tendo por base o funcionamento cerebral e, principalmente a experiência como mãe, trabalhadora, esposa e neurocientista (com um marido médico diagnosticado com Coronavírus e nos colocando em uma quarentena obrigatória) seguem algumas dicas úteis para manter a sanidade mental e, principalmente a sanidade das crianças.

O cérebro precisa de rotina. Quanto menor a criança, mais essa rotina deve ser estruturada pelo adulto, porém, devemos considerar alguns princípios básicos. Um dos principais componentes seria a necessidade que o cérebro tem de se reorganizar após cada período de aprendizagem ou direcionamento atencional excessivo. Esse período envolve a realização de atividades com componentes cognitivos e/ou emocionais diferentes daquelas que envolveram a aprendizagem-base.

Devemos respeitar antes de tudo um cérebro que se encontra numa situação de estresse e tensão excessiva nesse período de quarentena. O estresse envolve não só os pais, mas também, as crianças, que não estão compreendendo a necessidade de isolamento e organização no ambiente familiar que sempre foi considerado um espaço lúdico e afetivo.

Remodelar esse ambiente familiar exige um esforço enorme. A presença dos pais em casa não facilita a mudança dessa concepção do ambiente familiar. É natural que a criança pense nesse período como um período lúdico e tenha dificuldades em colocar-se dentro das expectativas do adulto nos momentos de home-office.

Frente a esse cenário seguem alguns conceitos que considerando o funcionamento cerebral permitirão aos pais facilitar a rotina e a organização das crianças.

O primeiro passo é realizar um contrato de comportamento e horários que deve ser assinado pela criança (ou colocado alguma coisa pela criança que a represente). Nesse contrato devem estar de forma clara e precisa algumas regras ambientais que devem ser respeitadas. Por exemplo, estipulando horários ou sinais ambientais (computador ligado, mamãe digitando no computador ou falando com alguém, plaquinha na porta do escritório ou da sala – falar baixo) que indiquem a necessidade de controle do comportamento.

O contrato deve ser escrito ou desenhado para que a criança possa compreendê-lo e, principalmente colocado em um local de fácil observação. Nunca dizer o que a criança NÂO pode fazer, mas o que ela deve fazer. Isso serve para tudo que formos instruir as crianças. Podemos dar sugestões de comportamentos a serem realizados: falar baixo enquanto os pais estiverem no computador, respeitar os espaços para uso de tinta ou criação de brinquedos, guardar os brinquedos ou material utilizado, chamar a mamãe somente quando ela não estiver sentada na frente do computador, …

Em seguida estipular as rotinas da casa com os horários. Por que não estimular as crianças a realizar algumas tarefas em casa? Crianças com 2 a 3 anos já podem guardar os seus brinquedos, roupas e sapatos, tirar prato da mesa, limpar pequenas partes da casa. Crianças de 4 a 5 anos: arrumar a cama, regar plantas, separar o lixo. Crianças de 6 a 8 anos: lavar a louça, varrer a casa. Crianças de 9 a 11 anos: preparar lanches, cuidar do bichinho da casa. Crianças de 12 a 14 anos: limpar banheiros, passar pano no chão, preparar pequenas refeições. Devemos manter a rotina com relação ao horário para acordar (desconsiderando a necessidade de transporte para a escola), tomar banho, escovar os dentes e fazer as refeições.

Devemos inserir então, os momentos de atividades escolares com 5 minutos de pausa a cada 30 minutos até que se encerre. Nessas pausas eletrônicos não são permitidos (assim como na escola). Inserir um lanche ou intervalo da manhã. Deixar uma hora antes do almoço para brincadeiras lúdicas ou recreativas.

Sugiro colocar em caixas materiais como: sucata, papel, tesoura, cola, tinta guache, lápis de cor, canetinha e permitir a criação com ou sem apoio de tutoriais na internet para a confecção. Atividades criativas e psicomotoras são bem vindas em quaisquer faixas etárias. Após o almoço (que as crianças podem ajudar a preparar, colocar a mesa, retirar a mesa e lavar seus pratos, talheres e copos) devem ser realizadas atividades livres desde que respeitadas as orientações dos combinados (respeitar o espaço da bagunça, o tom de voz,…). Dormir um pouquinho ou utilizar eletrônicos podem ser permitidos por 1 hora.

Novo momento para a utilização de brinquedos não eletrônicos, criação de material com sucata, desenhos, pinturas livres, recortes… O que a criança quiser, lanche (que a criança ajuda a preparar), leitura com escrita ou desenho sobre o significado do que foi lido, momento dos eletrônicos, jantar, atividades livres e finalmente… dormir.

 

 

Nas atividades livres é possível realizar um circuito de almofadas, colocar colchões no chão para a criança brincar livremente e motoramente. Caso a criança tenha alguma atividade on-line pode realizá-las.

Crianças pré-escolares: fazer um quadro com imagens claras do comportamento que deve ser esperado. Crianças em idade escolar: texto pode estar escrito.

Sugestões importantes a serem observadas:

  1. Evitar palavras como o Não… diga sempre o que você espera da criança em termos de comportamento.
  2. Definir espaços na casa: aqui pode bagunçar – limite esse espaço com um lençol ou caixas – defina o espaço.

Site consultado para determinar as atividades que podem ser realizadas pelas crianças: https://acasaqueaminhavoqueria.com/wp- content/uploads/2016/08/planner-de-tarefas-domesticas-idades.jpg

*Telma Pantano é Fonoaudióloga e Psicopedagoga do Serviço de Psiquiatria Infantil do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Coordenadora da equipe multidisciplinar do Hospital dia Infantil do Instituto de Psiquiatria da FMUSP, Especialista em Linguagem, Mestre e Doutora em Ciências pela FMUSP, Master emNeurociências pela Universidade de Barcelona – Espanha, Pós doutora em Psiquiatria pela FMUSP.