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O impacto positivo do bilinguismo na aprendizagem de crianças com TEA, dislexia, síndrome de Down e TDAH

Uma educação bilíngue de qualidade, alicerçada em um projeto pedagógico escolar verdadeiramente inclusivo, será capaz de beneficiar essas crianças na conquista de sua autonomia e cidadania

Marcelo de Cristo* Publicado em 27/10/2020, às 00h00 - Atualizado em 05/01/2021, às 11h36

É importante falar sobre aprendizagem bilíngue para pessoas especiais
É importante falar sobre aprendizagem bilíngue para pessoas especiais

Ao longo do tempo muitos mitos foram criados envolvendo o bilinguismo, porém a ciência vem descontruindo alguns deles por meio dos estudos de cognição humana. Um exemplo clássico é com relação aos possíveis impactos e malefícios no desenvolvimento da linguagem nas crianças com transtornos de aprendizagem.

Acertadamente, esses indivíduos trazem consigo características específicas, contudo, privá-las de oportunidades para que possam explorar suas potencialidades e construir sua autonomia será sempre pior, além de um retrocesso. Digo isso, aferindo-me também ao recente Decreto nº 10.502, de 30 de setembro de 2020, que institui a “Nova Política Nacional de Educação Especial”.

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Com a incorporação das tecnologias de imagem às pesquisas da neurociência cognitiva, especialmente a partir da última década do século XX, também conhecida como a “Década do Cérebro”, um crescente número de estudos vem sendo empreendido mundialmente, inclusive no Brasil, relacionando os efeitos do bilinguismo nos processos de desenvolvimento cognitivo de crianças típicas. Tudo isso tem levado à compreensão atual de que crianças bilíngues podem apresentar diversas vantagens cognitivas com relação às crianças monolíngues.

Pesquisadores, a exemplo da Ellen Bialystok, professora e pesquisadora pela Universidade de York, no Canadá, verificaram que, as crianças bilíngues demonstram por exemplo, uma maior capacidade de controle inibitório, ou seja, de isolar um estímulo distrator para manter a concentração, bem como de flexibilidade cognitiva, que é a habilidade de se adaptar a novos acontecimentos enquanto buscamos solucionar um problema ou realizar uma tarefa.

Essas vantagens se originam do fato de que, falantes bilíngues, se utilizam desses mecanismos de controle toda vez que falam ou escutam. Esse exercício constante não apenas fortalece a capacidade de controle, como também altera as regiões do cérebro a ela associada. Do ponto de vista da educação, tais vantagens podem fazer com que as crianças desenvolvam maior rapidez de raciocínio para a resolução das diversas tarefas escolares, além de uma maior concentração na hora de realizá-las.

TEA

criança japonesa
Crianças autistas são capazes de adquirir duas línguas 

É muito comum a crença de que, o bilinguismo, seria desafiador ou confuso demais para as crianças que possuem o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e poderia atrapalhar o seu desenvolvimento linguístico. Entretanto, as evidências recentes não dão suporte a essa alegação, especialmente com relação a crianças muito pequenas, abaixo dos seis anos.

As pesquisas têm mostrado, de forma consistente, que não há complicações no desenvolvimento decorrentes do bilinguismo. A Encyclopedia of Autism Spectrum Disorders, por exemplo, cita estudos feitos em fase pré-escolar que indicaram que crianças bilíngues com TEA atingem os marcos linguísticos, como as primeiras palavras ou formulação das primeiras frases, em idades similares às crianças monolíngues com o mesmo tipo de transtorno.

Já na fase escolar, um estudo de 2019, publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders com crianças na faixa dos cinco aos 10 anos de idade, indicou que autistas são sim capazes de adquirir duas línguas e que a quantidade de exposição à segunda língua seria o fator chave capaz de prever o grau de bilinguismo a ser alcançado, analogamente ao que ocorre com crianças típicas. Com relação à capacidade de crianças com idades entre 7 e 9 anos de contar histórias a partir de imagens, um outro estudo, demonstrou que não apenas houve diferença na estrutura da narrativa entre os dois grupos, como houve um maior número de enunciados utilizados nas narrativas pelas crianças bilíngues com relação às monolíngues com TEA.

DISLEXIA

Hoje já se sabe que quanto maior é o conhecimento da criança nas duas línguas a que são expostas (por exemplo, maior vocabulário) no período que antecede a alfabetização, mais facilmente ela irá adquirir a habilidade de leitura, que se constitui um grande desafio para crianças portadoras de dislexia. A aquisição de dois idiomas também pode atuar como fator gerador de reservas cognitivas, que é a utilização de recursos neurais para lidar com patologias do cérebro a fim de manter o funcionamento cognitivo. Nesse sentido, um estudo longitudinal do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul, realizado de 2013 a 2016, que acompanhou crianças de 12 a 17 anos em escolas aqui de Natal (RN), e também de Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC), concluiu que alunos disléxicos bilíngues têm melhor desempenho em tarefas em português que disléxicos monolíngues.

Esse foi um estudo pioneiro com a aplicação de testes em inglês e em português como língua materna em crianças com dislexia, e está em sintonia com as descobertas recentes feitas por pesquisadores internacionais, como no estudo publicado em 2019 pela revista Frontiers in Psychology de que, bilíngues disléxicos, obtiveram performances consistentemente melhores do que crianças disléxicas que falavam apenas uma língua, sugerindo que o bilinguismo deve ser apoiado mesmo em crianças com dificuldades de linguagem.

Todo esse novo conjunto de conhecimento acerca da relação entre bilinguismo e dislexia levou o renomado professor e pesquisador françês François Grosjean a afirmar, em entrevista à revista Psychology Today, que não, o bilinguismo não leva à dislexia nem aumenta a probabilidade de alguém tornar-se disléxico, e que as dificuldades principais com a leitura de uma criança disléxica que está aprendendo um idioma adicional são as mesmas daquelas de crianças monolíngues nas mesmas condições. Apenas, segundo o pesquisador, dificuldades podem ocorrer temporariamente caso a aprendizagem da leitura na escola ocorra primordialmente no idioma em que a criança disléxica ainda não domina, mas que não são necessariamente decorrentes do impacto do bilinguismo na dislexia.

SÍNDROME DE DOWN

Muitas famílias, profissionais da saúde e da educação também se questionam se as crianças com síndrome de Down podem ser prejudicadas ao receberem uma educação bilíngue. E, ainda uma vez, as evidências apontam para o contrário: crianças bilíngues e, com down, também não se diferenciam significativamente em suas habilidades linguísticas de crianças com a mesma alteração genética que aprendem somente uma língua. Um estudo publicado no Journal of Speech-Language Pathology, envolvendo 51 crianças confirmou a existência de dificuldades de linguagem de crianças com Síndrome de Down, mas não detectou prejuízo algum pelo fato de estarem sendo submetidos ao ensino bilíngue. Ao analisar outros estudos relacionando a aprendizagem de línguas adicionais e a síndrome de Down, a revista Down Syndrome News and Update sugere que os pais podem efetivamente incluir seus filhos na educação bilíngue, já que não parece haver evidencia científica de que a aprendizagem de duas línguas tem quaisquer efeitos negativos no desenvolvimento da língua materna das crianças.

TDAH

menina estudando
A educação bilíngue é para todos

Alguns benefícios associados ao bilinguismo em crianças com o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) vem contribuindo para desmistificar preconceitos daqueles que o associam sumariamente a atrasos no desenvolvimento da linguagem. Um estudo de 2016, publicado na revista Bilingualism: Language and Cognition da Universidade de Cambridge, investigou a interação entre bilinguismo e o TDAH numa amostra de 168 jovens, revelou que, ao contrário do que se previa, o grupo obteve uma performance melhor na habilidade de linguagem do que o grupo sem o transtorno, o que reforça a ideia de que a educação bilíngue não exerceria efeito negativo na proficiência linguística.

Outra vantagem foi percebida em um estudo de 2019 publicado no Journal of Attention Disorders, realizado com mais de 300 crianças bilíngues com problemas de atenção, apontando benefícios no processamento visual de informações com relação às crianças monolíngues, o que, segundo os pesquisadores, pode ter implicações nos tipos de intervenções realizadas em sala de aula. Os professores podem, por exemplo, utilizar esses alunos como modelos positivos em atividades que envolvam essas habilidades, melhorando sua autoestima. Ademais, pesquisas em andamento pela Health Research Authority (Inglaterra)7, e pela University of Oslo (Noruega), em suas revisões de literatura, atestam que a relação entre o bilinguismo e funções executivas (como a capacidade no controle da atenção) em indivíduos com TDAH ainda não é bem compreendida e que essas consequências necessitam ser melhor investigadas.

O desafio, portanto, parece estar muito mais voltado para a compreensão por parte dos educadores das questões relacionadas ao trabalho pedagógico com crianças que possuem esse distúrbio do neurodesenvolvimento, do que das questões específicas que a educação bilíngue traz.

A educação bilíngue, antes de ser bilíngue, é educação. Ao conduzirmos nossas crianças à escola regular e inclusiva, não exigiríamos que, por alguma característica que lhes é própria, não fossem expostas à linguagem matemática. Exigiríamos, ao invés, que o ensino da matemática fosse adequado às aptidões, preferências e habilidades de todos e de cada um dos estudantes, independentemente de suas características particulares. O mesmo devemos exigir com relação ao ensino de um idioma adicional, que é uma forma de linguagem tal qual a matemática. Pode ser útil às pessoas, na medida em que os profissionais do presente e do futuro podem ter acesso direto às fontes de informações científicas e aos estudos mais recentes em suas áreas de atuação sem que precisem aguardar até que se formule uma literatura em língua portuguesa.

Por fim, todas as pesquisas citadas são unânimes em recomendar que mais estudos sejam realizados a fim de produzir uma literatura capaz de orientar as famílias e os profissionais como pediatras, fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos e psicopedagogos para que possam oferecer encaminhamentos às questões de aprendizagem com base nos estudos mais recentes, contribuindo para que possamos superar concepções errôneas acerca da relação do bilinguismo com deficiências e transtornos de aprendizagem.

Como educador, acrescento ainda que apenas uma educação bilíngue de qualidade, alicerçada em um projeto pedagógico escolar verdadeiramente inclusivo, com tempo de exposição e métodos de ensino adequados aliados à um conjunto de profissionais constantemente capacitados, será capaz de beneficiar essas crianças na conquista de sua autonomia e cidadania.

* Marcelo de Cristo é pesquisador, professor, escritor e especialista educacional da International School – programa de educação bilíngue para escolas de ensino regular, e tutor de cursos de certificação de professores (CELTA) pela Universidade de Cambridge, tendo atuado na formação e desenvolvimento de professores no Brasil, América Latina e Reino Unido.

Assista ao programa do Inclua Mundo sobre o retrocesso da Política Nacional de Educação Especial:

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